29 anos de Dolly: a história da ovelha que desafiou a biologia e chocou o mundo
Em 22 de fevereiro de 1997, o mundo conheceu a ovelha Dolly, o primeiro mamífero clonado a partir de uma célula adulta. Criada por cientistas do Instituto Roslin, na Escócia, Dolly foi o resultado de 277 tentativas e abriu um debate ético sem precedentes sobre engenharia genética e a possibilidade de clonagem humana. Embora tenha morrido precocemente aos seis anos, seu legado transformou a medicina moderna e a biotecnologia

Há quase três décadas, a ciência rompia uma barreira que parecia intransponível. Em 22 de fevereiro de 1997, os pesquisadores Ian Wilmut e Keith Campbell apresentaram ao público a ovelha Dolly, que já estava com sete meses de vida. O anúncio provou que era possível reprogramar uma célula adulta especializada para dar origem a um novo ser vivo completo — um processo chamado de transferência nuclear de células somáticas.
O processo de criação
A jornada para o nascimento de Dolly foi complexa e exigiu a contribuição de três “mães” diferentes:
A doadora genética: Uma ovelha da raça Finn Dorset, de quem foi retirada uma célula da glândula mamária.
A doadora do óvulo: Uma ovelha Scottish Blackface, que forneceu um óvulo cujo núcleo (onde fica o DNA) foi removido.
A mãe de aluguel: Outra ovelha Scottish Blackface, que carregou o embrião resultante da fusão entre a célula adulta e o óvulo vazio.
Após 276 tentativas frustradas, Dolly nasceu em 5 de julho de 1996. Seu nome foi uma homenagem irreverente à cantora country Dolly Parton, devido à origem da célula utilizada no experimento.
Impacto e Debates Éticos
A notícia gerou uma onda de entusiasmo e temor. Pela primeira vez, a clonagem humana deixava de ser ficção científica para se tornar uma possibilidade técnica. Isso forçou governos ao redor do mundo a criarem legislações rápidas. O então presidente dos EUA, Bill Clinton, proibiu o uso de fundos federais para pesquisas de clonagem humana, e a ONU seguiu com restrições anos depois.
O objetivo dos cientistas, no entanto, era medicinal. Eles esperavam que a técnica permitisse criar animais “biofábricas”, capazes de produzir leite com proteínas específicas para tratar doenças como diabetes e fibrose cística.
O fim de Dolly e seu legado
Dolly viveu toda a sua vida no Instituto Roslin, teve seis filhotes de forma natural, mas sofreu com problemas de saúde. Em 2001, foi diagnosticada com artrite e, em 2003, com uma doença pulmonar degenerativa comum em ovelhas que vivem em ambientes fechados. Ela foi sacrificada em 14 de fevereiro de 2003, aos seis anos — cerca de metade da expectativa de vida de sua raça.
Embora sua morte precoce tenha levantado dúvidas sobre o envelhecimento de clones, estudos posteriores com outras ovelhas clonadas mostraram que elas podiam envelhecer de forma saudável. Hoje, o corpo de Dolly está preservado no Museu Nacional da Escócia, e sua linhagem genética não existe mais, mas a técnica que ela inaugurou é usada diariamente em pesquisas com células-tronco e na clonagem de animais domésticos e de elite.

