Antes dos celulares e da internet, o orelhão era peça indispensável nas ruas do Brasil. Servia como ponto de encontro, referência urbana, abrigo improvisado da chuva e, principalmente, como meio de comunicação em uma época em que falar à distância exigia moedas ou fichas telefônicas. O que muita gente não sabe é que o design desse símbolo urbano foi criado por uma arquiteta sino-brasileira: Chu Ming Silveira.
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Nascida em Xangai, na China, Chu Ming mudou-se para o Brasil aos 10 anos de idade. Formou-se em Arquitetura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em 1965 e, pouco tempo depois, passou a trabalhar na Companhia Telefônica Brasileira (CTB). Foi ali que recebeu a missão de desenvolver a estrutura que abrigaria os novos telefones públicos que seriam instalados em todo o país.
O primeiro orelhão foi inaugurado no fim de 1971, na rua Sete de Abril, no centro de São Paulo. No ano seguinte, a instalação se expandiu em larga escala pelo Brasil. Em seu auge, o país chegou a ter cerca de 1,2 milhão desses aparelhos espalhados pelas cidades.
O desafio de Chu Ming era criar uma proteção eficiente contra ruídos e intempéries, mas que também combinasse com o clima tropical brasileiro. As cabines fechadas, como as tradicionais de Londres, foram descartadas. A arquiteta se inspirou no formato de um ovo, por considerar que a forma oval oferecia propriedades acústicas ideais. O desenho ajudava a bloquear ruídos externos e, ao mesmo tempo, proteger a área próxima ao ouvido do usuário.
Dois modelos foram desenvolvidos: o Chu I, conhecido como “Orelhinha”, menor e feito em acrílico laranja para ambientes internos; e o Chu II, o “Orelhão”, produzido em fibra de vidro nas cores laranja e azul, pensado para áreas externas e resistente ao sol e à chuva. A escolha dos materiais também contribuiu para a durabilidade e resistência ao vandalismo.
Com o avanço da telefonia móvel, os orelhões passaram a perder espaço. Em 2019, ainda existiam cerca de 800 mil aparelhos. Após mudanças nas regras do setor, operadoras deixaram de ser obrigadas a mantê-los, e o número caiu drasticamente. No fim de 2025, restavam cerca de 13 mil em funcionamento.
Além do orelhão, Chu Ming também desenvolveu projetos de bancas de jornal e flores em fibra de vidro para a Prefeitura de São Paulo, em 1974, e trabalhou com arquitetura residencial sustentável no litoral paulista. Ela faleceu em 1997, mas seu legado permanece vivo na memória urbana do país.
O impacto cultural da criação foi tão grande que chegou a inspirar o escritor Carlos Drummond de Andrade, que celebrou a invenção em crônica publicada no Jornal do Brasil. Para ele, a “cuia que fala” era exemplo de solução criativa capaz de melhorar a cidade e conquistar a simpatia da população.
Hoje, mesmo em processo de extinção, o orelhão segue como símbolo de uma era em que a comunicação nas ruas tinha som de ficha caindo e voz ecoando sob uma concha colorida.
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