Acidente de trens na Espanha se converte em tema da campanha eleitoral a um mês da eleição
O acidente ferroviário que deixou ao menos 69 mortos na província de Toledo, no interior da Espanha, na quarta-feira, 28 se converteu em tema da campanha eleitoral a um mês das eleições gerais.
O primeiro-ministro Pedro Sánchez, que tenta a reeleição, esperava tirar proveito de uma onda de descontentamento em relação aos custos de moradia e aos aluguéis elevados ao convocar eleições antecipadas para 29 de novembro.
Agora, ele enfrenta questionamentos sobre a segurança das ferrovias, além de críticas de partidos de direita às suas políticas liberais de migração e acusações de corrupção contra seu partido e sua esposa – alegações que tanto ele quanto ela negam.
O principal rival de Sánchez, o líder do conservador Partido Popular, Alberto Núñez Feijóo, exigiu uma investigação completa do acidente.
Alejandro Quiroga, professor de ciência política na Universidade Complutense de Madri, disse à Associated Press que ainda é cedo para saber se o acidente mudará a opinião de muitos eleitores.
“Isso não é uma boa notícia para o Partido Socialista, mas talvez não os prejudique tanto, já que, de modo geral, os espanhóis não gostam quando políticos tentam tirar proveito de tragédias”, afirmou Quiroga. “Isso pode estar mudando, mas, até o momento, não é algo visto de forma positiva.”
Trabalhadores ferroviários realizaram uma greve na quinta-feira – planejada antes do acidente em Urda – para exigir que o governo implemente melhorias na segurança dos serviços ferroviários, medidas que, segundo os sindicatos, haviam sido prometidas após a primeira colisão fatal, ocorrida em janeiro.
Líderes sindicais também questionaram o fato de o ministro ter atribuído toda a responsabilidade a um único controlador e criticaram o vazamento, para a imprensa, das conversas ocorridas na sala de controle.
“O foco não deveria ser se houve ou não um erro humano, mas sim o que há de errado no sistema e quais aspectos precisam ser aprimorados para que, caso ocorra um erro humano, não cheguemos a uma situação como esta”, afirmou Pepa Páez, do sindicato CCOO.
A Justiça declarou o local do acidente como zona de investigação.
Governo fala em erro humano
O ministro dos Transportes da Espanha, Óscar Puente, afirmou na quarta-feira que o acidente foi causado pelo que ele classificou como uma ordem “inexplicável” emitida por uma central de comando ferroviário, após uma falha no sistema de segurança.
Segundo Puente, às 8h30, o sistema de segurança em um trecho da via parou de funcionar devido a uma falha computacional, o que levou à paralisação de todos os trens que circulavam pelo local. Naquele momento, um trem da operadora IRYO estava parado, enquanto um trem da RENFE encontrava-se 25 quilômetros atrás.
Poucos minutos depois, a central de comando autorizou o trem da RENFE a retomar a marcha, sem qualquer restrição de velocidade; como resultado, a composição acabou colidindo com o trem da IRYO, que permanecia parado, às 8h53.
Na quinta-feira, a imprensa espanhola divulgou breves trechos de áudio nos quais o controlador ordena ao maquinista que coloque o trem em movimento.
Puente declarou que o trem jamais deveria ter recebido autorização para seguir viagem, uma vez que um “sinal de parada” ainda estava ativo na linha. E, caso a circulação fosse permitida, o trem deveria, ao menos, ter recebido a instrução de transitar em velocidade reduzida.
Buscas continuam
As equipes de resgate continuam à procura de sobreviventes. Conforme o último balanço, o número de mortos chega a 69. Já entre os feridos, o registro é de 53, segundo informações do El País. Foi decretado um período de luto de três dias no país.
Os serviços de emergência, auxiliados por dois guindastes, continuam procurando vítimas entre a massa de ferros destruídos nos vagões mais atingidos.
Os cães especializados da Guarda Civil também trabalham na área. “Eles estão percorrendo os trilhos para ver se há algum vestígio biológico, que é a nossa prioridade neste momento”, explicou Pedro Pablo Garrido, porta-voz da Guarda Civil de Toledo.
*Com informações da Associated Press (AP).