Ambições de Trump com a Groenlândia tensionam laços do MAGA com extrema-direita da Europa

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As tensões em torno dos planos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de assumir o controle da Groenlândia abriram uma fissura na ligação antes inabalável entre o movimento MAGA e a extrema direita europeia.

A ruptura indica que o alinhamento ideológico, por si só, pode não ser suficiente para conter as preocupações de nacionalistas europeus diante do intervencionismo de Trump no exterior.

Líderes da extrema direita na Alemanha, Itália e França criticaram duramente os planos de Trump para a Groenlândia. Até mesmo Nigel Farage, aliado de longa data do presidente americano e líder do partido nacionalista britânico Reform UK, classificou as movimentações de Trump em relação à Groenlândia como “um ato muito hostil”.

Durante um debate realizado na terça-feira, 20, no Parlamento Europeu, parlamentares de extrema direita, geralmente alinhados a Trump, apoiaram de forma esmagadora a suspensão de um acordo comercial entre União Europeia e Estados Unidos, diante do desconforto com as ameaças feitas pelo presidente americano, que foram descritas como “coerção” e “ameaças à soberania”.

Parceiros transatlânticos do MAGA

Essa divergência entre Trump e seus aliados europeus é uma surpresa.

Partidos de extrema direita ascenderam ao poder em 2024 em diversos países da União Europeia, sacudindo as forças políticas tradicionais nos 27 Estados-membros do bloco, da Espanha à Suécia. Segundo o Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança, esses grupos políticos hoje ocupam 26% das cadeiras no Parlamento Europeu.

Há menos de um ano, partidos da extrema direita europeia se reuniram em Madri para aplaudir a eleição de Trump sob o lema “Make Europe Great Again”, enquanto Elon Musk, antes de perder o apoio de Trump, impulsionou influenciadores e figuras da extrema-direita europeia no X (antigo Twitter), incluindo o partido de extrema-direita alemão Alternativa para a Alemanha (AfD).

O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, foi alvo de críticas na Alemanha e em outros países europeus após se reunir com Alice Weidel, líder da AfD, durante as eleições de fevereiro. O partido, com o qual as legendas tradicionais se recusam a formar alianças, abalou o cenário político alemão ao dobrar sua presença no Bundestag e se tornar a segunda maior força do país.

Ainda assim, divisões profundas dentro do próprio movimento MAGA em relação à política externa de Trump repercutiram na Europa, com suas ações em relação à Groenlândia, Venezuela e Irã forçando seus aliados políticos a priorizar suas convicções ideológicas em detrimento da deferência ao presidente dos EUA.

Soberania acima de valores compartilhados

O National Rally, partido de extrema direita da França, em alguns momentos exaltou sua proximidade ideológica com Trump, especialmente no tema da imigração.

Há um ano, o partido enviou um de seus principais dirigentes, Louis Aliot, para a posse de Trump. Em contrapartida, o presidente americano saiu em defesa da líder do partido, Marine Le Pen, classificando como “caça às bruxas” sua condenação por desvio de recursos da União Europeia.

Jordan Bardella, 30 anos, presidente do National Rally e Membro do Parlamento Europeu, já elogiou as posições nacionalistas de Trump. Em entrevista à BBC no mês passado, afirmou que um “vento de liberdade, de orgulho nacional” soprava sobre as democracias ocidentais.

Nos últimos dias, porém, Bardella passou a se distanciar do governo americano. Em seu discurso de Ano Novo, ele criticou a intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela com o objetivo de capturar o então presidente Nicolás Maduro, classificando a ação como “interferência estrangeira” destinada a atender “aos interesses econômicos de empresas petrolíferas americanas”.

Indo além, Bardella denunciou na terça-feira, 22, o que chamou de “chantagem comercial” de Trump em relação à Groenlândia.

“Nossa submissão seria um erro histórico”, afirmou Bardella.

Outra aliada de Trump, a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, ecoou esse posicionamento. Em entrevista à emissora pública Rai, na quarta-feira, 23, ela disse ter afirmado ao presidente americano, durante uma conversa telefônica, que sua ameaça de impor tarifas em razão da Groenlândia foi “um erro”.

Resistência a críticas no flanco oriental da União Europeia

As reações entre líderes da direita europeia, no entanto, não foram homogêneas. O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, amplamente considerado o precursor do populismo iliberal associado a Trump, tem sido cuidadoso em evitar até a mais leve crítica ao presidente dos Estados Unidos.

Diante do que deve ser a eleição mais disputada de seus 16 anos no poder, marcada para abril, Orbán construiu sua identidade política com base na afinidade com Trump, prometendo aos eleitores que sua relação próxima com o presidente americano renderá dividendos significativos.

Segundo Orbán, Trump é a única esperança da Europa para a paz em meio à guerra na Ucrânia e um fiador da soberania nacional.

O líder húngaro tem buscado apresentar as ameaças de Trump à Groenlândia e a captura de Maduro como ações benéficas para a Hungria, ou como assuntos que não lhe dizem respeito.

“É uma questão interna… é uma questão da Otan”, afirmou Orbán sobre os planos de Trump para a Groenlândia, durante uma coletiva de imprensa no início deste mês, acrescentando que qualquer mudança proposta na soberania da ilha pode ser discutida no âmbito da Organização.

Apesar de sua defesa enfática da soberania nacional, Orbán também elogiou a ação dos Estados Unidos na Venezuela, classificando o país como um “narcoestado” e sugerindo que a derrubada de Maduro poderia beneficiar a Hungria por meio de preços mais baixos do petróleo nos mercados internacionais.

A relutância da Hungria em reagir às ações de Trump reflete posições semelhantes entre líderes da extrema direita no flanco oriental da União Europeia.

O presidente da Polônia, Karol Nawrocki, visto como aliado tanto de Orbán quanto de Trump, afirmou nesta semana, em Davos, que as tensões envolvendo a Groenlândia deveriam ser resolvidas “por via diplomática” entre Washington e Copenhague, e não por meio de uma coalizão europeia mais ampla. Ele também pediu que líderes da Europa Ocidental moderassem suas objeções à conduta de Trump.

Na vizinha República Tcheca, o primeiro-ministro e aliado de Trump, Andrej Babiš, recusou-se a criticar as ameaças dos Estados Unidos à Groenlândia e alertou contra o risco de a União Europeia permitir que o tema provoque um confronto com Trump. Na Eslováquia, o primeiro-ministro Robert Fico permaneceu em silêncio sobre as intenções de Trump em relação à Groenlândia, mesmo após se encontrar com o presidente americano em seu resort de Mar-a-Lago, na semana passada.

Ainda assim, a deposição de Maduro por Trump levou Fico a “condenar de forma inequívoca” a ação, classificando-a como um “sequestro” e “a mais recente aventura petrolífera americana”.

Ruptura ou divisão à vista

A ideologia que conecta o movimento MAGA a seus aliados europeus pode sobreviver aos desentendimentos recentes reforçando antigas queixas em comum, avalia Daniel Hegedüs, diretor para a Europa Central do German Marshall Fund.

Ele aponta votações recentes contra a liderança de Bruxelas no Parlamento Europeu por parlamentares europeus de extrema-direita sobre o pacto migratório da União Europeia e a suspensão do enorme acordo comercial com o Mercosul, bloco formado por cinco países da América do Sul.

“Se Trump continuar nesse caminho, representando uma ameaça à soberania de países europeus, então isso, naturalmente, dividirá a direita radical europeia”, afirmou.

“Não sabemos se essa divisão vai se manter ou se eles conseguirão voltar a unir forças em torno de temas nos quais possam cooperar. Esses temas podem ser suficientemente danosos para a União Europeia.”

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Estadão

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