Americano acusado de tramar morte da esposa com babá brasileira é julgado nos EUA
Jurados iniciaram nesta sexta-feira, 30, no Estado da Virgínia, as deliberações para decidir se um ex-agente de fiscalização do IRS (sigla em inglês para Internal Revenue Service, órgão semelhante à Receita Federal nos EUA), conspirou com a babá da família, a brasileira Juliana Peres Magalhães, com quem mantinha um relacionamento extraconjugal, para matar a esposa e atribuir o crime a um estranho.
Segundo a acusação, Brendan Banfield passou meses planejando se livrar da esposa para poder ficar com a babá do casal, Juliana Magalhães, que hoje é a principal testemunha da promotoria. Ela depôs contra ele no início do mês (veja mais detalhes sobre o depoimento de Juliana abaixo).
A brasileira afirma que ela e Brendan criaram uma conta em nome da esposa em uma plataforma de redes sociais voltada a fetiches e a usaram para atrair um homem, Joe Ryan, até a residência da família para um encontro sexual envolvendo uma faca, em 24 de fevereiro de 2023.
Os promotores dizem que os dois, que seriam amantes, atiraram em Ryan e criaram uma cena para parecer que ele era uma espécie de predador sexual que havia combinado um encontro com a esposa, Christine Banfield. A encenação tinha como objetivo fazer parecer que Ryan teria esfaqueado a mulher durante o encontro.
Christine era enfermeira de uma UTI pediátrica e sofreu ferimentos fatais com golpes de faca no pescoço. Promotoria e defesa concordam que Brendan Banfield e Juliana Magalhães dispararam contra Ryan.
Brendan depôs em sua própria defesa, negou qualquer conspiração e afirmou que atirou em Ryan para impedir que ele esfaqueasse sua esposa.
Ele também declarou que ele e a mulher tiveram casos extraconjugais ao longo dos 19 anos de relacionamento, mas que decidiram, em terapia de casal, manter o casamento. Se condenado pelos assassinatos, ele pode pegar prisão perpétua.
O marido também responde por acusações de abuso infantil e crueldade infantil qualificada, porque a filha do casal, então com quatro anos, estava no porão da casa no momento dos crimes.
Nas alegações finais, nesta sexta-feira, a promotora Jenna Sands disse ao júri que não era necessário se basear apenas no depoimento de Juliana Magalhães, apontando o que classificou como uma “profusão de provas”. Entre elas, o testemunho de especialistas de que manchas de sangue nas mãos de Ryan indicavam que o sangue de Christine Banfield havia pingado sobre ele de cima para baixo.
O advogado de Brendan, John Carroll, rebateu afirmando que o caso da promotoria se apoiava em uma “história fantasiosa”. Ele apresentou um especialista diferente em análise de sangue, que disse que as manchas eram inconclusivas.
A defesa também argumentou que a chefia da polícia se fixou desde cedo na teoria de que Brendan teria criado um perfil falso para atrair Ryan e matado a esposa, pressionando investigadores a sustentar essa conclusão e ignorando provas conflitantes.
Além disso, a defesa atacou a credibilidade de Juliana Magalhães, sustentando que ela moldou seu depoimento para se adequar à tese da acusação a fim de evitar uma longa pena de prisão. Ela será sentenciada após o julgamento de Brendan, e advogados afirmam que ela pode ser libertada. Juliana foi inicialmente acusada de homicídio, mas em 2024 se declarou culpada de uma acusação menor de homicídio culposo.
Durante o julgamento, Carroll apresentou analistas forenses que afirmaram que as evidências indicavam que Christine Banfield criou a conta na rede social e se comunicou com Ryan. Um perito em informática forense da polícia foi posteriormente transferido, e a defesa alegou que ele teria sido punido por contestar a teoria do perfil falso. Carroll também levantou questionamentos sobre o motivo de alguns detetives não terem sido chamados para depor.
Sands, promotora-chefe adjunta do estado, descartou a controvérsia em torno das provas digitais, dizendo aos jurados que elas jamais poderiam ser uma “prova definitiva” isoladamente, porque mostram o que um dispositivo estava fazendo, e não quem o estava utilizando. Sands também afirmou que a credibilidade de Brendan foi abalada pelo depoimento de seu chefe, que contradisse a alegação de que ele teria saído de casa cedo no dia dos assassinatos para uma reunião importante.
O que Juliana Magalhães disse em depoimento?
Juliana Peres Magalhães, que trabalhava como babá para o casal, testemunhou no início de janeiro, e disse que decidiu se voltar contra o ex-amante no caso do duplo homicídio porque “queria que a verdade viesse à tona”.
Por mais de um ano, ela não falou com as autoridades sobre as mortes de Christine e Ryan e nem sobre o suposto envolvimento de Brendan Banfield.
No entanto, segundo os advogados, dias antes de seu próprio julgamento criminal, a ex-babá mudou de posição e passou a colaborar. “Eu simplesmente não consegui guardar para mim o sentimento de vergonha, culpa e tristeza”, disse ela em juízo, ao se referir à farsa de simular uma tentativa de homicídio contra a esposa de Brendan.
Inicialmente, a ex-babá foi acusada de homicídio em segundo grau pela morte de Ryan, mas posteriormente se declarou culpada de uma acusação rebaixada para homicídio culposo.
Em tribunal, ela afirmou que ela e Brendan criaram uma conta em nome de Christine Banfield em uma rede social voltada a pessoas interessadas em fetiches sexuais. Por meio desse perfil, Ryan entrou em contato, e os usuários combinaram um encontro sexual que envolveria uma faca.
Em seu depoimento, Juliana descreveu o plano de Brendan para matar a esposa e passar o resto da vida ao lado dela. Ela afirmou que ele passou meses planejando o crime e tomando medidas para fabricar álibis.
John Carroll, advogado de Banfield questionou o depoimento inicial de Juliana e suas motivações para aceitar o acordo de culpa.
Em juízo, ele a pressionou sobre quem criou o endereço de e-mail ligado à conta da rede social e onde ela e Brendan Banfield estavam no dia em que o perfil foi criado. Ela afirmou que não se lembrava de quem criou a conta nem em qual cômodo da casa da família Banfield eles estavam.
O advogado de defesa insistiu repetidamente em mensagens específicas enviadas pela conta criada em nome de Christine Banfield. Visivelmente irritada, Juliana reiterou que não tinha certeza sobre quem havia enviado quais mensagens. Em determinado momento, respondeu a Carroll: “Eu não vou fazer isso”.
Carroll também pediu que Juliana lesse trechos de cartas que ela escreveu da prisão para Brendan Banfield e outras pessoas, nas quais expressava depressão e frustração com sua situação. “Sem força. Sem coragem. Sem esperança”, escreveu em um dos trechos.
Juliana afirmou que sua saúde na prisão e o isolamento dos entes queridos também a levaram a se voltar contra Brendan. Vestindo um terno cinza e gravata listrada, Brendan ocasionalmente levantava os olhos enquanto Juliana prestava depoimento. A ex-babá não aparentou olhar para ele de forma perceptível.
Juliana será sentenciada ao fim do julgamento de Brendan. Dependendo do nível de cooperação com as autoridades, segundo os advogados, ela poderá receber pena equivalente ao tempo já cumprido.
Brendan, cuja filha de então quatro anos estava na casa da família na manhã dos assassinatos, também é acusado de abuso infantil e crueldade infantil qualificada em conexão com o caso. Ele responderá a essas acusações durante o julgamento.

