Áudios mostram que fiscal da Fazenda planejava comprar sauna para lavar dinheiro de propina
O auditor fiscal André Weiss, da Secretaria de Estado da Fazenda e Planejamento de São Paulo, preso nesta quinta-feira, 3, na Operação Caldarium, sob suspeita de ter recebido R$ 4,5 milhões em propinas dentro de mochilas durante almoços e jantares em restaurantes do bairro de Pinheiros, zona Oeste da capital, planejou abrir uma sauna exclusivamente para lavar dinheiro de origem ilícita. Áudios obtidos pelo Ministério Público indicam a estratégia que Weiss pretendia adotar para escapar a um eventual cerco dos promotores. O Estadão teve acesso às transcrições de diálogos do auditor fiscal e busca contato com a defesa.
“Você sabe que eu pensei em pegar dinheiro e comprar uma sauna em São Paulo..prá fazer reunião..eu pensei nisso e falei com o ..vamos juntar uma grana e vamos pegar uma p* de uma sauna, né? E prá lavar também é bom”, disse Weiss, durante um almoço com colegas do Fisco estadual no dia 27 de julho de 2023.
“Quantas pessoas entram em sauna e pagam em dinheiro?”, seguiu Weiss. “Quase todas, cara.”
Em outro trecho ele disse. “Quem que vai passar cartão em sauna? Ninguém.”
A escuta ambiental foi captada por um dos próprios fiscais, Artur Gomes da Silva Neto, o ‘King’ do esquema bilionário de propinas que se teria instalado em setores sensíveis da Fazenda-SP, segundo a Promotoria. Preso em agosto do ano passado, na Operação Ícaro, ‘King’ confessou ter sido o mentor do ‘fura-fila’ – em troca de vantagens ilícitas em larga escala ele e seu grupo antecipavam a gigantes do varejo e do atacado ressarcimento de créditos tributários inflados.
Os promotores do Gedec, unidade do Ministério Público que combate delitos econômicos, corrupção e lavagem de dinheiro, acessaram os arquivos do celular de ‘King’ e resgataram a gravação ambiental de reuniões dele e colegas do Palácio Clóvis Ribeiro, sede do Fisco paulista.
André Weiss revelou sua intenção de abrir a sauna menos de um mês antes da primeira entrega de propina que pegou das mãos de Paulo Sérgio Siqueira do Prado, o ‘PP’, que atuou como inspetor fiscal na delegacia Regional Tributária da Capital e, como delegado, substituiu Marcelo Bergamasco Silva, em seus afastamentos, na Delegacia Regional Tributária da Capital – Bergamasco, atualmente, é o subsecretário da Fazenda. Em julho, ‘PP’ fechou acordo de delação premiada com os promotores do Gedec.
A sauna sonhada por Weiss inspirou o nome da operação dos promotores, Caldarium – na Roma antiga a sala de banho quente das termas. “Mais grave, a mesma gravação capta André Weiss descrevendo, em primeira pessoa, um método de lavagem de dinheiro”, destaca a Promotoria. “Relata ter pensado em ‘pegar dinheiro e comprar uma sauna em São Paulo”, não apenas ‘pra fazer reunião’, mas porque ‘pá lavar também é bom’, raciocinando que em sauna ‘quase todas’ as pessoas pagam em dinheiro”, anotam os investigadores.
Para eles, quando o fiscal diz “quem que vai passar um cartão em sauna?, ninguém” representa a lógica clássica de negócio de fachada intensivo em numerário.
No almoço gravado, além de Artur ‘King’ e André Weiss estavam à mesa mais três fiscais, Valmir Lucas Dornelles, Edgar Ishida e Bruno Alves de Oliveira.
Eles trataram do rateio de propinas de três grandes contribuintes sob fiscalização do grupo e que eram assessorados pelo advogado João Buttini, apontado como protagonista do fluxo de valores ilícitos.
Em outro trecho da reunião, ‘Artur King’ relata que ‘o externo que fez o trabalho da parte do ressarcimento’ separaria ‘uma parte que ele tinha combinado’. ‘king’ descreve o operador ‘Daniel’ como tendo ‘assaltado e extorquido’ o contribuinte, exigindo dele 10%.
