Bianca Bin e Sergio Guizé falam sobre peça e vida a dois no interior

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No jargão teatral, trabalho de mesa é a fase inicial dos ensaios em que a equipe se reúne para ler o texto, discutir os personagens e se livrar de vícios adotados em papéis anteriores. É assim que o casal de atores Sergio Guizé, de 46 anos, e Bianca Bin, de 35, define a rotina na chácara onde mora desde 2019 em Indaiatuba, a cem quilômetros de São Paulo.

Neste trabalho de mesa doméstico, eles cuidam da horta e do jardim, pintam quadros, só comem orgânico, fazem música, brincam com os cachorros e gatos e se esquecem de qualquer tipo de pressão. “Nós trabalhamos, trabalhamos e adoramos voltar para casa porque aqui a gente se esvazia e se prepara para uma nova criação”, afirma Guizé. Bianca, por sua vez, enxerga benefícios que ultrapassam a pulsão artística e reconhece que a vida fora de uma metrópole lhe fez recuperar uma essência esquecida: “A desaceleração me colocou em outra frequência e isso reflete na minha saúde mental, que andava negligenciada pelo excesso de compromissos.”

É com essa energia renovada que Guizé e Bianca contracenam no teatro pela primeira vez em um espetáculo presencial. Em 2021, tempos de pandemia, eles participaram da peça O Homem que Matou Liberty Valance, de Jethro Compton, dirigida por Mário Bortolotto e apresentada em uma plataforma digital. Sob o comando do diretor Elias Andreato, agora, eles são os protagonistas de Meu Deus!, comédia da dramaturga israelense Anat Gov que estreia no Teatro das Artes, no Shopping Eldorado, nesta sexta-feira, dia 24. É a segunda vez que Andreato encena o texto. Em 2014, ele montou a história com o ator Dan Stulbach e a atriz Irene Ravache.

Desta vez, Bianca interpreta Ana, uma terapeuta sufocada pela agenda do consultório e a rotina de mãe-solo de um garoto autista (participação de Enzo Morente). O contato de um novo paciente, identificado como D (papel de Guizé), vai colocá-la em confronto até com as convicções ateístas. Ele é Deus, o todo-poderoso, que, decepcionado com a humanidade, se sente fracassado com os rumos do mundo que criou e se questiona se o seu trabalho faz algum sentido.

“Mesmo sendo uma comédia, a peça traz reflexões profundas em um tempo em que tudo virou superficialidade e se dá pouco valor à compaixão e ao contato humano”, observa Bianca. Guizé completa a companheira, alertando que a texto prega a importância da esperança mesmo nas maiores dificuldades: “É um Deus humanizado e adoecido que representa cada um de nós em nossas fragilidades e, unidos, ele e Ana resolvem suas crises existenciais.”

Como ator, dedicado ao teatro há quase 30 anos, Guizé confessa que se questiona constantemente sobre o sentido da profissão nos dias de hoje, principalmente para os outros. Pode parecer ingênuo, sendo um artista popularizado por novelas como Êta Mundo Bom! (2016) e Êta Mundo Melhor! (2025), mas, segundo ele, o trabalho só faz sentido quando a comunicação é estabelecida com o público. E, no teatro, a importância salta porque a reação imediata oficializa a troca. “Se eu não tivesse os personagens para discutir questões que considero importantes seria um homem frustrado porque não possuo a desenvoltura da oralidade”, reconhece. “Tenho uma dificuldade grande de me expressar fora do teatro e, depois de muito me julgar, aceitei que sou mesmo assim.”

Em nove anos de relacionamento, Bianca vê uma grande mudança positiva na personalidade do marido. Segundo ela, a maturidade tirou dele o peso de querer agradar os outros e sempre desejar fazer e dizer a coisa certa. Com um olhar tímido, Guizé justifica que o amor é o responsável por suas transformações e, somente se adaptando, entendeu que os dois poderiam solidificar uma história. “Eu me libertei de algumas individualidades para que a gente construísse uma vida plena de casal”, assume ele. “Por sermos dois, não me vejo mais como um.”

Guizé e Bianca trabalharam juntos pela primeira vez na novela Êta Mundo Bom! (2016), começaram a namorar em O Outro Lado do Paraíso, no ano seguinte, e, por indicação do ator Lima Duarte, compraram a chácara em Indaiatuba. Ela morava há 10 anos no Rio, na Barra da Tijuca, e ele, há 20 no Bixiga, na capital paulista. Os amigos levaram um susto diante da ideia deles de viver no mato. Mesmo conscientes de que trilhavam a contramão, seguiram as intuições e perceberam benefícios da sossegada vida em comum de que não abrem mão. “O Guizé me ensina a ter paciência, resiliência, a confiar mais em mim”, reconhece a atriz. “Quando falei que não estava feliz e precisava repensar minha carreira, ele foi o primeiro a me dar força e falar que eu reencontraria o prazer no trabalho.”

Bianca começou uma guinada profissional há quatro anos. Concentrou energias no palco e, desde 2022, participou de três espetáculos relevantes, Jardim de Inverno, dirigido por Marco Antônio Pâmio, O Nome do Bebê, o seu primeiro encontro com Elias Andreato, e Job, encenação de Fernando Philbert, que ficou em cartaz até maio, no Rio. Nesta última, interpretou Jane, uma reguladora de conteúdo de internet que sofre um colapso nervoso. “Eu passei a escolher os trabalhos para falar dos assuntos que considero importantes e isto tem influência do Guizé”, comenta. “Ele me ensina sobre o silêncio, a pensar antes de falar, porque sou impulsiva, ansiosa, e a valorizar o simples, como dar de presente uma mudinha que plantamos.”

Meu Deus!

– Onde: Teatro das Artes. Shopping Eldorado. São Paulo – SP

– Quando: Sexta e sábado, 20h; domingo, 17h. De 24/7 a 1º/11

– Quanto: R$ 160

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