Boots Riley usa absurdo para criticar o consumismo em ‘I Love Boosters’

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Em sua primeira visita ao Brasil, o norte-americano Boots Riley veio com uma dupla responsabilidade. Na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o cineasta, produtor, rapper e vocalista das bandas Street Sweeper Social Club e The Coup integrou o júri internacional. Além disso, apresentou aos brasileiros seu novo filme, a comédia I Love Boosters, que estreia nas salas de cinema em 19 de novembro.

A trama nos explica que os boosters são ladrões de lojas de grife. Eles furtam peças cobiçadas para revender em seguida nas comunidades de baixa renda. Neste contexto, as amigas Corvette (Kiki Palmer), Sade (Naomi Ackie) e Mariah (Taylour Paige) tentam dar o troco na famosa estilista Christie Smith (Demi Moore), conhecida por se apropriar da cultura negra e plagiar as criações alheias.

O estilo desenvolvido pelo diretor pode ser descrito como insano, exagerado, surrealista. Ele imagina um edifício inteiro inclinado, onde seus ocupantes têm dificuldade de ficar em pé; uma máquina capaz de teletransportar as peças de vestuário roubadas; e uma loja onde os funcionários dispõem de míseros trinta segundos de pausa para o almoço – devidamente cronometrados pelo chefe.

Consumo e preconceito

O intuito desta jornada, conforme o autor explica, é criticar os absurdos do capitalismo e do consumo desenfreado. Em seu trabalho como ativista, Riley denuncia violações de direitos humanos. Esta é a base de I Love Boosters.

“Os boosters são aquelas pessoas que atendem à necessidade de uma comunidade. O sistema sempre vendeu a ideia de que precisamos possuir determinadas coisas para conquistar status, ou para expressar nosso lado artístico. Muitas vezes, é pela roupa que você diz a qual grupo pertence”, afirma o cineasta, conhecido pelos trajes coloridos e extravagantes. De fato, durante a conversa com o Estadão, ele veste um terno amarelo estampado, além de um chapéu roxo.

O cineasta sugere que a perseguição às pessoas negras vai além: “Os boosters têm o respeito local, mas são demonizados pela mídia. Na comunidade negra dos Estados Unidos, as pessoas sempre dizem que sentem saudade daqueles tempos em que os vizinhos cuidavam uns dos outros – quando ocupavam as ruas, o espaço urbano. Mas os noticiários sempre apontam ‘bairros perigosos’ onde simplesmente existem pessoas negras em frente às suas casas. Assim, tantas coisas boas acabam sendo demonizadas.”

O humor do absurdo

Mas por que representar este debate por meio do humor, envolvendo toques de fantasia, ficção científica, comédia física e pastelão? Segundo Riley, “o inesperado me agrada. Não quero assistir a um filme em que penso: ‘Agora já sei que a mãe vai morrer'”.

Ele entende que vários espectadores busquem o reconforto em produções repletas de fórmulas conhecidas. Em sua perspectiva, isso traria ao espectador uma sensação de segurança, nestes tempos tão imprevisíveis. “Mas quero que meus filmes sejam como a vida. Você não sabe o que vai acontecer quando virar a esquina.”

Por isso, recusa a descrição de um autor de histórias “absurdas”, o que também incluiria o longa-metragem Desculpe Te Incomodar (2018) e a série Sou de Virgem (2023). O artista considera não se encaixar em categoria nenhuma. “Muitas vezes, o que faço é simplesmente intensificar a contradição para mostrá-la melhor. Mesmo quando estou apenas dando uma palestra e falando sobre o capitalismo, eu aponto uma contradição específica, a exemplo da exploração do trabalho, e reforço o discurso sobre ela.”

O norte-americano considera que o absurdo lhe permite obter uma reação visceral do público, análoga aos sentimentos dos personagens. Mas nem toda insanidade seria política ou cinematograficamente relevante, ele acredita. “Eu poderia fazer um filme de escritório onde todo mundo precisa se sentar em cadeiras gigantes. Seria absurdo, mas e daí? Qual o sentido disso? Tanto faz.” Por isso, seus exageros dialogam com aquilo que o diretor enxerga como inaceitável na vida real. Só assim pode criar obras empolgantes para o espectador.

Revolução coletiva

Para o autor, personagens como Corvette, que correm atrás de seus sonhos enquanto enfrentam o sistema, nos lembram que “precisamos nos envolver na luta e fazer parte do mundo”. Riley aponta que o sonho americano está associado ao sucesso individual, condicionado pelo ganho e pelo acúmulo. Isso enfraqueceria o próprio conceito de sociedade.

“Agora, como diretor, eu circulo por ambientes nos quais muitas pessoas conseguiram realizar seus sonhos. Percebo que várias delas se questionam: será que conquistei tudo isso às custas do meu afastamento da comunidade?”.

Não por acaso, em I Love Boosters, as jovens amigas negras se aliam a um modelo em ascensão no universo da moda (LaKeith Stanfield), aos trabalhadores chineses das usinas têxteis (representados por Poppy Liu) e às vendedoras das lojas de grife. Apenas unidos eles podem enfrentar o poder, ilustrado pela arrogância e riqueza de Christie Smith.

Mesmo assim, embora os acontecimentos da trama sejam exagerados, os protagonistas não o são. Esta é a base do trabalho de Riley, que insere personagens comuns, com os quais o público pode se identificar, em contextos fantásticos.

“A maioria do elenco atua de maneira bastante realista, a partir de sentimentos reais, ligados à crise e à insegurança. São personagens solitários. Keke Palmer, por exemplo, apresenta uma das atuações mais realistas e cheias de nuances de sua carreira”, ele pondera. “Naomi Ackie também tem uma atuação bastante realista. Nós nos divertimos com essas personagens, mas o ridículo se encontra no mundo ao redor”.

Conhecendo o Brasil – e maratonando filmes

Em São Paulo, o cineasta brinca com seu próprio desconhecimento a respeito da cidade e do país.

“Nunca tinha estado no Brasil antes. Eu realmente achava que no Brasil só havia praias, e as pessoas andavam de sunga e biquíni o tempo todo. Era a imagem que eu tinha. Mas agora percebo que o Brasil é uma mistura de Cidade do México com Hong Kong e um toque de Nova Orleans. Todo mundo é simpático, animado e conversa bastante.”

Riley teve a oportunidade, inclusive, de presenciar as manifestações políticas pelas ruas, às vésperas da eleição presidencial. As avenidas paulistanas estavam tomadas de pessoas no sábado, 24 de outubro, quando foi realizada esta entrevista.

Mesmo assim, o norte-americano teve de dedicar a maior parte de seu tempo aqui à tarefa de assistir a dezenas de longas-metragens do mundo inteiro, para determinar o vencedor do troféu Bandeira Paulista da 50ª Mostra. “Eu sempre quero ver mais filmes do que consigo. Tenho vontade de fazer maratonas em casa, mas me sinto culpado, porque tenho muitas coisas para fazer em paralelo.”

“Mas ontem, por exemplo, assisti a cinco filmes seguidos. Então, para mim, essa oportunidade representa a desculpa perfeita para mergulhar no cinema. Eu até vi um filme mudo, acompanhado por uma orquestra!”, ele comemora, em referência à projeção da cópia restaurada de Aurora (1927), de F. W. Murnau.

A Mostra foi encerrada nesta quinta-feira, 29, mas terá sessões de repescagem até o dia 4 de novembro.

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Estadão

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