Copa expõe crise provocada por perseguição a imigrantes na África do Sul
A África do Sul voltou a disputar uma Copa do Mundo após 16 anos, mas não despertou a mesma simpatia como na última participação. Em redes sociais como o X, mensagens antipáticas à seleção sul-africana se multiplicaram, motivadas por episódios recentes de violência xenófoba e perseguição a imigrantes de países vizinhos.
Há pelo menos cinco anos, a Operação Dudula atua na África do Sul como um movimento pela expulsão de imigrantes em situação irregular. No ano passado, também foi fundada a iniciativa March and March, com objetivos semelhantes. As manifestações de ambos os grupos são marcadas pelo uso da coação e da violência, além de uma onda de xenofobia na internet.
“Dudula” significa “remover algo à força” em zulu. O movimento foi fundado em 2021, em Soweto, com o objetivo inicial de combater o crime e o tráfico de drogas, e se transformou em um partido político sob o lema “Put South Africans First” (Os sul-africanos em primeiro lugar).
Seus integrantes acusam estrangeiros de roubarem os empregos dos sul-africanos e de associação à criminalidade. Atuam como justiceiros: verificam documentos, confiscam comércios e bloqueiam o acesso de alguns imigrantes a serviços de saúde.
Em junho de 2026, o governo sul-africano anunciou a expulsão de 2.745 estrangeiros em apenas uma semana, após o presidente Cyril Ramaphosa prometer endurecer o combate à imigração irregular. Com isso, países como Gana, Moçambique e Nigéria receberam centenas de cidadãos deportados no último mês.
Cerca de 600 moçambicanos, por exemplo, voltaram ao seu país após episódios de violência em Mossel Bay, na África do Sul, que, segundo autoridades de Maputo, resultaram em cinco mortos, além de saques e incêndios.
Ramaphosa manifestou-se contra as mobilizações violentas e afirmou que “apenas agentes governamentais autorizados podem agir contra violações da nossa lei”. Ao mesmo tempo, ressaltou que as preocupações dos sul-africanos “merecem ser ouvidas e tratadas”.
Tensão migratória em alta
Segundo a Autoridade de Gestão de Fronteiras sul-africana, cerca de 25 mil estrangeiros deixaram a África do Sul nas últimas semanas, após o fim de um prazo não oficial para que imigrantes em situação irregular saíssem do país. Milhares de pessoas, principalmente naturais do Malawi e do Zimbábue, concentraram-se nas ruas de Durban, Johanesburgo e Cidade do Cabo à espera de transporte para retornar aos seus países de origem.
O cenário também desencadeou protestos anti-imigração, durante os quais mais de 900 pessoas foram presas na semana passada, segundo levantamento divulgado pela polícia sul-africana. Alguns foram detidos por falta de documentação, violência pública, abrigo de imigrantes ilegais e roubo.
Tebello Mosikili, vice-comissário da polícia nacional, afirmou em coletiva que, das 120 marchas registradas pelo país na semana passada, 108 foram pacíficas e 12 exigiram intervenção das forças de segurança em razão dos tumultos. Mosikili ainda afirmou que reforços policiais foram enviados para cinco das nove províncias do país na noite do dia 30 de junho, para responder a episódios isolados de saques e criminalidade.
De acordo com Alexandre dos Santos, professor do Departamento de Relações Internacionais da PUC-Rio, tanto a Operação Dudula quanto o March and March nasceram em regiões pobres da África do Sul e são caracterizados não apenas pelo discurso anti-imigração, mas também pelo vigilantismo.
“Mais do que xenófobos, são movimentos afrofóbicos, voltados à perseguição e expulsão de nacionais de outros países do continente africano. O estopim disso é a economia sul-africana, que vem patinando nos últimos dez anos, o fato da população não estar vendo melhorias nos serviços públicos”, diz.
Um episódio marcante aconteceu em julho deste ano, quando uma mulher do Malawi e seu filho de um ano foram impedidos por membros da Operação Dudula de entrarem em um centro de saúde, por não possuírem documento sul-africano. O bebê morreu pouco tempo depois.
Esse tipo de violência se dirige majoritariamente contra os migrantes de países vizinhos, ao passo que os agressores culpam estes estrangeiros por problemas estruturais da sociedade sul-africana. De acordo com Laura Moutinho, professora livre-docente do Departamento de Antropologia da USP e pesquisadora da África do Sul há mais de 20 anos, ações semelhantes podem ser observadas em outras áreas do mundo.
“Este movimento dialoga com a extrema-direita europeia e com os movimentos anti-imigração nas Américas e Ásia. Mas veja como funciona o racismo neste contexto: por estarem sofrendo supostos ataques, os Estados Unidos receberam brancos nascidos na África do Sul. Por sua vez, movimentos anti-imigração atingem os próprios africanos negros. Perpetradores e vítimas vivem ambos sob extrema desigualdade racial, que teve origem no regime supremacista branco conhecido como Apartheid (separação) e em situação social e econômicas historicamente precárias”, afirma.
Repercussão durante a Copa do Mundo
O cenário provocou reações negativas no restante da África, e muitos torcedores do continente passaram a apoiar qualquer adversário da seleção sul-africana durante a Copa do Mundo. “A África do Sul nem sequer pode atacar o México. Os únicos que podem atacar são os ganeses que moram em seu país”, denunciou o influenciador ganês Eric Boateng, no X, antes do primeiro jogo do torneio.
“Estamos apoiando o México para que a África do Sul volte para a casa cedo e proteja seus empregos”, publicou um usuário do X, de modo a ironizar a acusação de que os estrangeiros seriam responsáveis pelo alto índice de desemprego no país.
Logo após a vitória do México contra a África do Sul por 2 a 0, um perfil queniano provocou os sul-africanos: “Espero que não estejam culpando os imigrantes africanos pela derrota por 2 a 0 e pelos dois cartões vermelhos na partida contra o México”.
Até mesmo um membro da Confederação Africana de Futebol (CAF), Ibrahim Sannie Daara, declarou sua torcida contra os Bafana Bafana no X: “Vocês não podem maltratar a África e esperar uma bênção em escala mundial”.
Por outro lado, a Associação Sul-Africana de Futebol publicou um comunicado em que denuncia o “assédio online” e as ‘mensagens ofensivas’ dirigidas aos jogadores, que classificou como “inaceitáveis”.
A reação evidencia uma mudança na percepção regional sobre a África do Sul, que passou a ser vista por muitos africanos como um país opressor. De acordo com Laura Moutinho, trata-se de um cenário delicado e incomum.
“Na Copa do Mundo de 2018, eu estava fazendo uma pesquisa no Zimbábue. Eles não torciam para países como a França, que identificam como colonizadores. As manifestações atuais colocaram a África do Sul nesta mesma chave. O que é bem triste, pois o país contou com a ajuda de outras nações do continente africano na luta contra o Apartheid. Torna-se, assim, uma violência entre iguais, fraturando a solidariedade pan-africana, que foi construída por gerações passadas que se engajaram na luta contra o colonialismo na região”, comenta.
Segundo as estimativas mais recentes da Statistics South Africa, o país abriga entre cerca de 2,4 milhões e 3,1 milhões de imigrantes, aproximadamente 4% da população de 62 milhões de habitantes.
A maioria vem de países vizinhos como Lesoto, Moçambique e Zimbábue, tradicionais fornecedores de mão de obra para a economia sul-africana. Dados do censo apontam que, entre 1996 e 2022, a população estrangeira quase dobrou, de 2% para 4% do total de habitantes. Apesar do contingente ser pequeno, parte da população culpa os imigrantes pelo desemprego e pela precariedade dos serviços públicos.
Histórico de conflitos e desigualdades
A violência contra imigrantes expõe uma contradição da sociedade sul-africana que, embora multiétnica e multicultural, permanece marcada por desigualdades e conflitos. Desde o século 17, a África do Sul foi construída a partir da imposição separatista das minorias brancas: primeiramente, os africâneres, e posteriormente, os britânicos. A tomada das instituições políticas pelas elites brancas resultou em regimes de segregação, classificação e hierarquização racial.
“Quando o Dudula e o March and March começam a mapear as famílias dos imigrantes e a marcar portas de casas onde vivem estrangeiros, eles estão replicando ideias antigas. Ao atribuir a essas pessoas as mazelas que acontecem no Estado, sem responsabilizar os governantes, você responsabiliza quem está no mesmo recorte social que você”, comenta o professor da PUC-Rio. “Isso aconteceu com os judeus na Europa, com os indianos em Uganda, os zimbabuanos, etíopes e somalis na África do Sul”, completa.
“A África do Sul foi capaz de produzir uma das Constituições mais avançadas do planeta e construiu uma imagem de país que reconcilia com sua diversidade étnica e cultural. Mas essa reconciliação não se traduziu em menos pobreza, mais empregos e redução das desigualdades”, conclui.
*Com informações de agências internacionais.
