‘Delegada do PCC’: outros candidatos estão sendo monitorados, diz chefe da Polícia

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A delegada Layla Lima Ayub, de 36 anos, presa nesta sexta, 16, sob suspeita de ligação com o PCC, não é o único nome na mira da Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo. Outros candidatos que participaram de concursos à carreira de delegado estão sob vigilância. “A gente tem vários outros candidatos sendo monitorados”, disse o secretário da Segurança Pública, delegado Nico Gonçalves ao ser indagado sobre os rumos da investigação que descobriu o elo de Layla com a facção.

O Estadão busca contato com a defesa de Layla Ayub. O espaço está aberto.

Nico não revelou mais detalhes do rastreamento por uma cautela da apuração. “A gente não pode dizer como chegou lá.”

“Temos ainda 400 e poucos candidatos. Estamos trabalhando para isso, para não deixar contaminar o serviço público, os agentes públicos com o crime organizado.”

“Quando o aluno está cursando a Academia, a polícia não para de trabalhar, e foi o que aconteceu. Nossa aluna (delegada Layla) passou no concurso, não havia nenhum apontamento que a desabonasse. Cortamos da própria carne? Sim. Mas é o exemplo que a gente está dando.”

Uma denúncia anônima ao Ministério Público de São Paulo foi o caminho para a Corregedoria da Polícia Civil descobrir a estreita ligação da delegada com o PCC e seu relacionamento amoroso com Jardel Neto Pereira da Cruz, o ‘Dedel’, expoente do tráfico de drogas e líder da facção na região de Marabá, no Pará.

A informação que chegou à Corregedoria indicava que ela participou de uma audiência de custódia no dia 28 de dezembro e conseguiu soltar um grupo de faccionados pouco mais de uma semana depois de ter sido empossada na Polícia Civil de São Paulo em cerimônia no Palácio dos Bandeirantes, na presença do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

“Verificamos aí que ela participou de uma audiência de custódia, mesmo depois de tomar posse como delegada de polícia, o que é contrário ao ordenamento”, disse Nico. “Começamos a investigação. Ela teria se amasiado com um indivíduo faccionado que estava no gozo de livramento condicional e, de maneira irregular e ilícita, teria vindo até São Paulo. Ambos estavam residindo aqui em São Paulo.”

O casal foi preso em uma pensão na Avenida Engenheiro Antônio Eiras Garcia, no Butantã, zona Oeste da cidade.

“Esse indivíduo (‘Dedel’) é notoriamente faccionado, já havia sido condenado com decisão de trânsito em julgado por integrar o PCC pelo crime de tráfico de drogas”, assinalou o secretário da Segurança; “Era uma das lideranças do Primeiro Comando da Capital na região norte do país e essa advogada se envolveu com ele e o trouxe aqui para São Paulo, chegando a levá-lo inclusive à posse dela no Palácio do Governo.”

Nico ressaltou que o estágio probatório do policial dura três anos. “A gente continua sempre a investigar, não só ela como todos os alunos. Ela era uma policial militar do Espírito Santo, depois mudou-se para o Pará. Enfim, até então não tinha nenhum apontamento sobre ela que a gente pudesse perceber alguma coisa estranha.”

Para o delegado chefe da Corregedoria da Polícia, João Beolchi, a Operação Serpens, que culminou na prisão da ‘delegada do PCC’, descortina ‘uma situação que é a eterna vigilância’.

“A atividade da Polícia Civil é vigiar, procurar e entender situações como essa. O trabalho da Corregedoria, o trabalho de toda a Polícia Civil, se destina principalmente a evitar, a coibir a cooptação, o aliciamento de candidatos e de funcionários da própria instituição”, acentua Beolchi.

O corregedor é taxativo. “Esse trabalho é ininterrupto, é circular. Durante os primeiros três anos e, depois, durante toda a vida funcional do candidato. Qual é a mensagem? A mensagem é que o Estado, que a Polícia Civil com o Ministério Público, permanece atenta a qualquer desvio. Não só nesse período de três anos, que é o estágio probatório dessa candidata, dessa aluna. Mas durante todo o período, durante todo o período laboral do policial, em todas as carreiras. Não só nessa, em todas as carreiras isso é feito.”

O delegado avalia que a ação integrada da Corregedoria com os promotores do Gaeco – braço do Ministério Público que combate o crime organizado – ‘foi uma resposta dura, uma resposta rápida’.

Beolchi assinalou que ‘não há nenhum vício, nenhum elemento de fraude no concurso, absolutamente nada nesse sentido’ – ou seja, Layla Ayub superou por seus próprios méritos todas as etapas do concurso para delegada. Ela já tem experiência como advogada.

“As investigações dão conta de que, justamente, essa delegada, atuando como advogada, passou a atuar em favor das lideranças da facção do PCC no Estado do Pará, e, nesse contexto, acabou sendo cooptada por um indivíduo específico”, disse o promotor de Justiça Carlos Gaya, que integra os quadros do Gaeco. “Ao que se indica ela estava trabalhando para os interesses da facção, já como advogada. Mas tudo isso há de ser devidamente apurado aí na investigação, é uma prisão temporária, uma prisão, justamente, para a investigação, para permitir que a gente esclareça e vá fundo aí em tudo que a gente ainda precisa apurar nesse caso.”

O promotor Gaya disse. “A gente enxerga como preocupante, de fato, essa tentativa de cooptação de agentes públicos, mas a gente precisa enxergar pelo lado positivo.”

Sobre a possibilidade de outros faccionados estarem tentando se infiltrar na Polícia, o corregedor da Polícia declarou. “Parece uma ação individual, de fato, ela atuando como advogada, acabou sendo cooptada, no curso da atividade dela, como advogada na região do Pará. E, circunstancialmente, acabou sendo aprovada aqui no concurso de delegada de polícia, o que trouxe aí um risco concreto para as forças de segurança de São Paulo, mas foi logo identificada.”

O corregedor Beolchi arrematou. “Trata-se de uma investigação que vai nos mostrar a real amplitude do nível de comprometimento dessa delegada. A ação foi extremamente bem coordenada, uma ação rápida, cirúrgica, com transparência, legalidade.”

Para ele, a investigação social da ‘delegada do PCC’, que é parte do processo da formação do policial, não falhou.

Nico Gonçalves reiterou. “Ela (Layla) não tinha nenhum apontamento, até então, que a desabonasse. Eu não queria estar aqui nesse momento, eu queria contar com mais uma aluna na academia. A gente está precisando de delegado, eu queria contar com isso. Mas como eu falei, a pessoa está em um estágio probatório de três anos. E nos três anos pode ser investigada.”

Segundo Nico, ‘não há nenhum indicativo, nenhum indício’ de que o PCC possa ter financiado a delegada Layla para fazer o concurso em São Paulo. “O que se indica é a hipótese de que ela tenha sido de fato cooptada no curso por essas lideranças do PCC dentro dos presídios no Pará, uma advocacia que ela exercia havia pouco tempo, há cerca de dois anos, e que se aprofundou após o início ali do relacionamento amoroso dela com essa liderança. Na verdade, ela exercia o mister dela como advogada antes de prestar o concurso em São Paulo.”

O próximo passo da Operação Serpens é a identificação dos clientes de Layla. “Vamos identificar e traçar uma relação entre todos os clientes e esse cliente (‘Dedel’) dela também, que, na verdade, é o companheiro dela.”

Informações do Gaeco do Pará apontam que Layla ‘tinha uma atuação muito próxima de lideranças do PCC na região de Marabá, ainda que não se tratassem especificamente de clientes dela, o que seria um indicativo de que ela estaria, de alguma forma, facilitando a comunicação entre eles ou mesmo de que ela estaria atuando em benefício da instituição e não de indivíduos específicos, sendo paga eventualmente pela facção e não de indivíduos específicos’.

“São as hipóteses investigativas que podem se comprovar ou não se comprovar”, disse o promotor Gaya sobre as atividades da delegada do PCC. “São múltiplas as hipóteses. Uma delas é o próprio Jardel, uma das lideranças da região Norte. As demais são, por exemplo, o número de visitas que ela (Layla) realizava para presos, inclusive dos quais ela sequer tinha procuração para atuar em favor, eram muitos.”

O promotor avalia que o fato de uma advogada ligada ao PCC ter realizado e passado no concurso para delegada indica um avanço da infiltração da organização nas instituições públicas. “Demonstra um grau maior, de fato, de audácia, de ousadia da organização criminosa.”

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Estadão

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