Desabamento de mina na república centro-africana mata mais de 100 pessoas
As esperanças de encontrar sobreviventes em uma mina de ouro que desabou na República Centro-Africana diminuíam nesta quinta-feira, 20, dois dias após o desastre matar mais de 100 pessoas e deixar outras soterradas sob os escombros.
Equipes de resgate continuaram a recuperar corpos do local de mineração artesanal em Zamboye, perto da fronteira com Camarões, mas trabalhadores locais afirmaram que a operação carecia dos equipamentos e da experiência necessários para um desastre dessa magnitude.
“O esforço de resgate está sendo organizado, mas não é suficiente para a situação”, disse Jérémie Ngbiri, um mineiro que trabalhava no local e perdeu o irmão e um amigo no desabamento.
Ngbiri relatou ter visto algumas vítimas sufocarem enquanto as pessoas tentavam resgatá-las. A Cruz Vermelha local estava auxiliando nas buscas, mas não conseguiu precisar quantas pessoas permaneciam soterradas, disse o voluntário Gervais Ganagoro.
“Continuamos encontrando corpos”, disse ele, acrescentando que mais de 10 foram recuperados apenas na manhã desta quinta-feira. “A cada hora, corpos são descobertos, aumentando o número de vítimas.”
Autoridades locais e a Cruz Vermelha informaram na quarta-feira (19) que mais de 100 pessoas morreram no desabamento e alertaram que o número de vítimas provavelmente aumentaria.
O tribunal da subprefeitura de Baboua informou em comunicado que vários túneis subterrâneos onde os mineiros trabalhavam desabaram, provocando um deslizamento de terra.
Uma investigação foi aberta para determinar as causas do desabamento, identificar as vítimas e os responsáveis pela operação do local, bem como apurar eventuais responsabilidades criminais, segundo o comunicado.
O ministro de Minas, Rufin Benam Beltoungou, expressou condolências às famílias das vítimas e alertou os mineiros sobre os perigos de práticas de mineração inseguras, conforme nota divulgada pelo ministério.
Mineração de ouro se expande apesar dos riscos
Desabamentos em minas artesanais são comuns na República Centro-Africana, onde milhares de pessoas trabalham na extração em pequena escala, muitas vezes com pouca proteção. As escavações são frequentemente feitas à mão e podem atingir vários metros de profundidade.
“As condições de segurança não são garantidas nesses locais”, disse Chekoua Justin Landry, gerente de programas da Forests and Rural Development, uma organização sem fins lucrativos de Camarões que atua na governança de recursos naturais e com comunidades rurais. “As paredes dessas cavas não são estabilizadas e, com as chuvas, deslizamentos podem ocorrer facilmente.”
Abdon Adamou, prefeito de Garoua-Boulai, uma cidade camaronesa próxima ao local da mina, disse que as fortes chuvas haviam enfraquecido o solo da região.
Quatro camaroneses e dois chadianos estavam entre os mortos, disse Adamou à Associated Press. Ele afirmou estar trabalhando com as autoridades da República Centro-Africana para repatriar os camaroneses feridos e os corpos daqueles que morreram no desabamento.
Hamadou Abba, de 50 anos, disse que seu sobrinho de 32 anos, Doudou Marcel, estava entre os mineiros camaroneses mortos no desabamento.
Marcel, pai de dois filhos, trabalhava na mina de Zamboye há cerca de cinco anos, depois de deixar a escola e tentar, sem sucesso, ingressar no serviço público, contou Abba.
“No início, não acreditei que ele tivesse morrido e precisei ligar para outros contatos para confirmar”, disse Abba. “O corpo dele e o de seu amigo, que também morreu no incidente, foram trazidos de volta no mesmo dia”, acrescentou.
O corpo de Marcel foi sepultado na quarta-feira na propriedade da família, no leste de Camarões, disse Abba. Pesquisadores e a mídia local relataram, no início deste ano, a existência de atividades de mineração inseguras e não regulamentadas associadas a uma corrida do ouro em rápida expansão nos arredores de Zamboye.
“A mineração artesanal é praticada lá há décadas, passando de uma geração para a outra”, disse Landry. “Mas, com a chegada da mecanização, a mineração de ouro expandiu-se consideravelmente, trazendo graves danos ambientais, bem como acidentes nas cavas de mineração”, acrescentou.
Um relatório de especialistas da ONU documentou a mineração ilegal na área, incluindo o envolvimento de grupos armados e o uso de métodos de extração que representavam riscos à saúde e ao meio ambiente.
