Elis Regina pelo olhar do filho: Documentário adapta livro de memórias de João Marcello Bôscoli
Elis & Eu, documentário de André Buchatsky que estreia nesta terça-feira, 25, no canal Universal +, traz a música de Elis Regina (1945-1982), uma das maiores cantoras que o País já conheceu, mas também reverbera o silêncio ensurdecedor de uma casa que ficou sem mãe, deixando marcas profundas em seus três filhos e na música popular brasileira após aquela manhã de janeiro.
“A casa era a Elis. Dissolveu. É o famoso ‘caiu a casa’ de todo mundo. Ou, de muita gente. Ela deu uma entrevista uma vez dizendo que a família dela era constituída de quatro pessoas, ela e três crianças. Infelizmente, foi ela que morreu. Se fosse eu, a casa continuaria ali. Sendo ela, desmontou”, diz João Marcello Bôscoli, primogênito de Elis, ao Estadão.
O filme parte do livro de memórias que Bôscoli lançou em 2019, Elis e Eu – 11 anos, 9 meses e 19 dias com a minha mãe (Editora Planeta). O subtítulo foi todo o tempo que ele teve com a mãe. Não à toa, ele o contabiliza com tanta precisão. O produtor, atualmente com 56 anos, preserva-o em um baú que, ao mesmo tempo que ele o abre para tirar alguma memória, ele o fecha com cuidado para que essas lembranças não escapem.
“Me deparei com uma situação real: dois filhos e um monte de memórias minhas que eu gostaria de compartilhar com eles. Era legal deixar registrado porque a vida é incerta. Não que eu tenha ou tivesse tido o temor da morte. A vida é assim”. Bôscoli é pai de Arthur, 14 anos, e André, 10.
“Eles adoram a vovó Elis. Queria que eles conhecessem a Elis mãe, a que contém a artista, por meio desse ponto de vista que só eu poderia trazer por ser o único filho com essa idade”, explica Bôscoli. Os outros dois rebentos de Elis, os cantores Pedro Mariano e Maria Rita, tinham, na época em que a mãe morreu, 6 e 4 anos, respectivamente.
Se no livro a visão é apenas de Bôscoli, no documentário o diretor traz outros depoimentos para investigar quem era a Elis mulher. A jornalista Ione Cirilo, que privou da amizade da cantora, fala sobre o lado “mãezona” de Elis, apontando como ela tratava os filhos com respeito e atenção. Bôscoli confirma. “Era uma mãe que conversava muito, meio de igual para igual. Não fazia uma voz infantilizada. Quando eu tinha 9 anos, ela começou a falar sobre o universo da mulher comigo. De características no corpo do homem que ela achava bonitas. Uma formação ampla”, conta.
Pedro Mariano, com lembranças mais difusas, relata idas à horta da família para colher tomatinhos com a mãe e a irmã, em uma casa que ficava na Serra da Cantareira, em São Paulo. Maria Rita fala sobre a mãe em depoimentos de arquivo, dados em entrevistas a emissoras de televisão.
O jornalista Julio Maria, autor da biografia Elis Regina – Nada Será Como Antes (Companhia das Letras), pontua fatos da trajetória de Elis. O guitarrista Natan Marques, que trabalhou com Elis por oito anos, conta detalhes sobre o álbum que a cantora começaria a gravar uma semana depois de sua precoce morte, aos 36 anos.
Os relatos são costurados com dramatizações protagonizadas pela atriz e cantora Lílian Menezes, que já havia interpretado Elis no espetáculo Elis – A Musical. É ela que reproduz uma das cenas que estão preservadas apenas na memória de Bôscoli: ele, menino, deitado na areia da praia após pegar um ‘jacaré’, vê o sol desaparecer por um instante. Era a mãe que havia se aproximado dele, curvado o corpo e dado um sorriso para o filho.
“Quando quero visitar esse acontecimento, no qual estávamos só nós dois, tenho que puxar pela minha cabeça. Fecho os olhos para lembrar gostoso. Pela primeira vez estou acessando essa memória de olhos abertos, em uma tela. E [a cena] ficou com o temperamento do que sinto. Algo mágico”, define Bôscoli sobre o documentário. O filme é uma iniciativa de André Buchatsky, sem envolvimento direto da família.
O produtor destaca outros dois aspectos de Elis & Eu. Um deles é ser muito próximo ao livro, tratando de tragédias, mas de maneira solar. O outro, segundo Bôscoli, é de conseguir mostrar que Elis “é uma pessoa legal”. “Não no sentido de ser boa ou má, mas de ser uma pessoa interessante, que não decepciona. Aquela figura que te entrega emoção quando você está ouvindo a música, dentro de casa, é solidária, amiga dos amigos, e tentou fazer o melhor possível”, esclarece.
Um dos momentos mais emocionantes é quando é lida uma carta que Elis escreveu para Bôscoli quando ele fez um ano de idade. “Não me imagine mais do que eu sou. Tenho tantos problemas quanto você. Não me culpe”, diz um dos trechos.
O filho afirma tê-la obedecido. “A quantidade de amor que eu recebi é a única explicação para uma série de coisas. Do otimismo, da autoconfiança. Culpa nunca foi uma questão. Fico muito feliz de ver, 44 anos depois, como aquela criança reagiu. Botei na minha cabeça, ninguém me falou: Nunca vou ficar triste. Está tudo certo. Nossa relação continuou”.
Desde 2009, Bôscoli trabalha em iniciativas para preservar a memória da mãe, com relançamentos de álbuns. Para o fim deste ano, ele prepara um álbum com dez canções em que a voz de Elis gravada em um especial de 1976 vai receber novos acompanhamentos musicais – o músico João Bosco e o percussionista Paulinho da Costa já gravaram para o projeto. Também está prevista uma exposição para o MIS, em São Paulo.
“Temos que tentar deixar uma cultura. De colocar Elis de uma maneira que as futuras gerações, da família ou não, se sintam interessadas em preservar sua obra. Quero que ela caminhe não mais de ano em ano, ou de década em década, mas de século em século. Não estarei mais aqui, mas, enquanto estiver, darei o meu máximo”, diz o filho de Elis.
