Embaixador do Irã agradece Lula por críticas aos ataques de Israel e EUA que mataram Khamenei
O embaixador do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam Ghadiri, agradeceu à condenação, por parte do governo Luiz Inácio Lula da Silva, dos ataques aéreos americanos e israelenses contra seu país, que começaram no sábado, 28, e levaram à morte do líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei, e comandantes militares.
“Agradecemos a condenação do ato de agressão dos Estados Unidos e do regime sionista pelo governo do Brasil. Vemos essa ação da parte do governo do Brasil como uma ação que dá valor aos valores humanos, à soberania, à integridade territorial e também à independência dos governos”, afirmou Ghadiri.
Lula tem desde o segundo mandato boas relações com o regime iraniano e tentou, sem sucesso, intermediar junto da Turquia, um acordo nuclear entre Teerã e as potências ocidentais. No terceiro mandato, o petista tem também criticado a guerra de Israel contra o Hamas após os atentados de 7 de outubro de 2023, o que provocou um distanciamento nas relações bilaterais com Israel. Atualmente, não há embaixadores em nenhuma das capitais.
Ele não quis responder, porém, se Teerã considera que Lula pode voltar a exercer um papel de interlocução ou mediação com o governo americano, como já desempenhou no passado, em relação ao acordo nuclear. O presidente brasileiro tem uma reunião com Donald Trump nos próximos dias, em Washington. Embora a data não esteja confirmada, pode ocorrer por volta do dia 16 de março.
O embaixador iraniano disse esperar que a guerra tenha efeitos mínimos sobre o comércio do produtos do agronegócio entre Brasil e Irã. O País é um dos principais fornecedores de milho, soja, derivados de soja para alimentação animal e açúcares ao mercado iraniano. O Brasil compra principalmente adubos e fertilizantes químicos, frutas e nozes.
‘Campo de batalha’
O diplomata também descartou negociações com os Estados Unidos e Israel. O embaixador afirmou que os contatos em curso sobre o programa nuclear e o programa de mísseis balísticos era uma “farsa”. Ele disse que seu governo vai definir “no campo de batalha” as consequências do bombardeio americano e israelense. Segundo o embaixador, os ataques iranianos tem como objetivo apenas instalações militares de Israel e dos EUA no Oriente Médio, sobretudo na região do Golfo.
O governo Trump tem pressionado as novas lideranças da burocracia estatal e religiosa do regime iraniano a negociar. Trump chegou a prever que a guerra dure certa de quatro semanas e disse em entrevistas que os iranianos indicaram desejo de conversar.
Ao falar sobre a guerra, o embaixador afirmou que “a mesa de negociação foi atacada pelo regime sionista e pelos americanos”. “De forma explícita, eles manifestaram não buscam o um acordo nuclear eles buscam mudança de regime”, afirmou o embaixador. “Os EUA e o regime sionista com apoio mútuo começaram as agressões e ataques usando das negociações”.
O embaixador desconversou sobre o bloqueio do tráfego naval pelo estreito de Ormuz, um dos desdobramentos da guerra. Ele respondeu que Khamenei já havia alertado sobre os riscos de uma guerra regional se o país fosse atacado. Ele, no entanto, afirmou que Teerão não tem problemas com países árabes vizinhos, atingidos por mísseis nos últimos dias, e mira apenas unidades militares americanas.
Questionado sobre a capacidade iraniana de enfrentar uma conflito militar de longo prazo, o diplomata afirmou que o país se adaptou, em virtude dos longos anos de sanções, à produção nacional de equipamentos militares, como drones de alta qualidade, e vai resistir e reagir à altura dos ataques, sem impor limite algum na retaliação.
“O ?Irã está pronto para as piores situações possíveis”, resumiu.”Nós nos defenderemos até que quem nos atacou recue.”
Ghadiri descreveu que a burocracia do regime islâmico se reorganizou conforme previsto constitucionalmente, “de forma muito célere”, e que a “defesa está contínua e poderosa”.
Apesar do isolamento e da falta de socorro militar concreto até agora, o embaixador disse que agradece as manifestações de países amigos, como China e Rússia, e que respeita os pontos de vista de todos os países.
O embaixador também não deu uma explicação clara sobre os objetivos do Irã ao manter estoque de 400kg de urânio enriquecido a 60% – pouco abaixo do que o grau de pureza usado em armas nucleares, de 90%. Segundo ele, essa foi uma consequência do rompimento do acordo nuclear JCPOA, de 2015, por parte de Trump. O acordo previa manutenção do enriquecimento baixo, garantindo a pureza para fins pacíficos da energia, e o levantamento de sanções como contrapartida.

