Estudante de moda, adolescente e pai de duas filhas estão entre mortos durante protestos no Irã

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Milhares de manifestantes foram mortos nas últimas duas semanas em meio à repressão do governo iraniano a protestos que tomam as ruas do país. Entre as vítimas está a estudante Rubina Aminian, de 23 anos, que cursava Design Têxtil e Moda na Faculdade Shariati, instituição de ensino superior dedicada apenas a mulheres, em Teerã. A organização Iran Human Rights, com sede na Noruega e integrantes dentro e fora do Irã, informou que Rubina foi morta em 8 de janeiro, após sair da faculdade para participar de um protesto. Ela foi baleada na cabeça à queima-roupa, pelas costas.

Pessoas próximas à estudante disseram à Iran Human Rights que ela era “uma jovem cheia de alegria de viver e apaixonada por moda e design de roupas, cujos sonhos foram enterrados pela violenta repressão da República Islâmica”.

A família de Rubina mora em Kermanshah, a cerca de 500 quilômetros de Teerã. Após tomar conhecimento do ocorrido, os familiares viajaram até a capital iraniana para tentar localizar o corpo da jovem, mas enfrentaram dificuldades.

Segundo a organização, eles foram levados a uma área próxima à faculdade, onde encontraram centenas de corpos de jovens mortos por tiros na cabeça e no pescoço. A maioria tinha entre 18 e 22 anos.

“Inicialmente, a família não foi autorizada a identificar o corpo de Rubina e, posteriormente, foi proibida de levá-lo consigo”, disseram pessoas próximas à família da estudante.

Após muita insistência, os familiares conseguiram levar o corpo para Kermanshah. Ao chegarem à cidade, no entanto, descobriram que a casa da família estava cercada por autoridades da força de inteligência do Irã, e que não tinham permissão para enterrar Rubina.

Ainda de acordo com a organização, a jovem precisou ser sepultada em uma estrada entre Kermanshah e Kamyaran. A família, de origem curda, tentou realizar uma homenagem em mesquitas na cidade de Marivan, cuja população é majoritariamente curda, mas foi informada de que os templos não estavam autorizados a sediar a cerimônia.

Pai de duas crianças e adolescente também foram mortos

Outra vítima da repressão é o manifestante Ali Dehghan-Joghan, de 55 anos, segundo o jornal independente Iran Wire, especializado em direitos humanos no Irã.

Dehghan-Joghan foi baleado na cabeça em 9 de janeiro, em Teerã, durante um protesto. Ele tinha duas filhas pequenas, era irmão da ativista Masoumeh Dehghan e cunhado do advogado Abdolfattah Soltani, que ajudou a advogada Shirin Ebadi, vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2003, a fundar o Centro de Defensores dos Direitos Humanos (DHRC, na sigla em inglês).

Um dia antes, o adolescente Sina Eshkeboosi, de 17 anos, também foi baleado em Teerã, segundo o Iran Wire. Ele chegou a ser encaminhado a um hospital, mas não resistiu aos ferimentos.

A tia de Eshkeboosi, Samira Shahsavari, que mora no Canadá, disse ao jornal que só soube da morte do sobrinho na terça-feira, 13, quando a conexão telefônica internacional foi reestabelecida após dias de bloqueio de comunicação no Irã. A internet foi suspensa em 8 de janeiro e ainda não foi retomada.

Ela afirmou que a família foi obrigada a assinar um termo para garantir que o sepultamento ocorresse em completo silêncio. Samira contou ainda que Eshkeboosi era filho único e planejava se mudar para o Canadá. “Ele tinha uma vida confortável, mas era um menino responsável, e foi por isso que participou dos protestos”, acrescentou.

Protestos em mais de 180 cidades e milhares de mortos

Segundo a organização Human Rights Activists News Agency (HRANA, na sigla em inglês), o Irã viveu na terça-feira, 13, o 17º dia de protestos, com a interrupção da conexão com a internet como um dos elementos definidores da crise.

Dados da HRANA mostram que, ao todo, 614 manifestações ocorreram em 187 cidades iranianas. O número de mortes confirmadas chegou a 2.403, embora a organização alerte que o total pode ser ainda maior, devido à dificuldade de coletar informações. A HRANA estima também que 1.134 pessoas estejam gravemente feridas.

Segundo o jornal The New York Times, um funcionário do Ministério da Saúde do Irã, sob condição de anonimato, afirmou que cerca de 3 mil pessoas foram mortas em todo o país.

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Estadão

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