Filantropia com cabeça de investidor: quando doar vira estratégia de longo prazo
E se doar também fosse uma forma de investir? É essa mudança de lógica que a PUC-Rio quer provocar ao aproximar seus fundos patrimoniais da Faria Lima. A universidade, berço intelectual das ideias que deram origem ao Plano Real e tradicional formadora de profissionais para o mercado financeiro, está conversando com gestoras de wealth management e family offices para colocar a filantropia no radar das grandes famílias investidoras.
A estratégia é conduzida pela Alumni, associação de ex-alunos que completa 75 anos, e busca transformar bolsas de estudo e outros projetos da universidade em compromissos de longo prazo. Em vez de uma doação pontual, a proposta é incorporar à filantropia a lógica de patrimônio, estratégia e planejamento, com um retorno que não aparece no extrato bancário, mas se traduz em benefícios para a sociedade.
“Temos investido em encontros para enfatizar que a análise de risco e o retorno esperado são diferentes dos setores tradicionais, mas que se trata de um investimento estratégico, com retorno para a sociedade”, comenta a presidente da Alumni PUC-Rio, Barbara Cristhian. “Somos um player preparado para ter essa conversa com as famílias interessadas e com o mercado financeiro, que está começando a pensar em produtos.”
O modelo ainda engatinha no Brasil. Embora os fundos patrimoniais, ou endowments, tenham marco legal desde 2019, sua expansão segue lenta. A proposta é preservar o patrimônio e destinar seus rendimentos ao financiamento de bolsas, pesquisa e inovação. O desafio é convencer a Faria Lima a apostar nessa lógica de investimento de longo prazo.
A dificuldade passa por uma cultura de doação ainda pouco habituada a manter o capital aplicado por anos para financiar projetos futuros. No Congresso, propostas tentam reintroduzir incentivos tributários para os endowments, aproximando o modelo de mecanismos já conhecidos, como as leis de incentivo à cultura e ao esporte.
Para especialistas, o incentivo fiscal poderia funcionar como uma alavanca para ampliar os aportes e atrair mais doadores e investidores, especialmente para áreas como educação e meio ambiente, afirma o advogado especializado no atendimento a organizações do Terceiro Setor Pedro Carpenter Genescá.
“Já existe um conjunto de leis nacionais que cria esses incentivos fiscais como fomento setorial, mas, na sanção e na promulgação da Lei 13.800, o artigo de incentivo fiscal foi vetado, porque não havia fonte orçamentária, naquele momento, para a contrapartida”, lembra. “Se tivessem incentivo, seria um fator agregador e certamente multiplicador dessas iniciativas.”
A PUC-Rio decidiu testar esse mercado mesmo sem o benefício fiscal. Seu fundo já captou cerca de R$ 7 milhões e tem a meta de alcançar R$ 35 milhões até 2028. Um aporte de R$ 2,5 milhões feito por um casal de ex-alunos viabilizou a primeira Bolsa Perpétua da universidade, destinada a estudantes de baixa renda em cursos das áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM), cobrindo integralmente os custos da graduação. O primeiro bolsista deve ingressar em 2027. A aposta é transformar doações em patrimônio capaz de financiar oportunidades por décadas, em vez de depender de recursos limitados a um único ciclo.
Rede de engajamento
Paralelamente, a associação criou um programa de doadores pioneiros, com cotas de R$ 300 mil. O valor pode ser aportado por investidores individuais, famílias ou grupos de ex-alunos, com possibilidade de parcelamento. “É uma forma de também democratizar cada vez mais o acesso a quem tem essa vontade de contribuir”, diz a presidente da associação.
Além da captação de recursos, a Alumni quer ampliar o envolvimento dos antigos alunos com a universidade. Uma das iniciativas é um programa de mentoria para estudantes que estão até o quarto período da graduação, aproximando quem já se formou de quem ainda está na universidade.
“Nos inspiramos em outros fundos patrimoniais para estabelecer um modelo em que a doação de recursos é importante, mas é a última camada de uma relação com os antigos alunos. Queremos tê-los por perto, doando tempo e conhecimento às novas gerações, para aproximar o mercado da universidade e ampliar exponencialmente a possibilidade de inovação na universidade”, pontua Cristhian.
Payback dos ex-alunos
A lógica da retribuição está por trás das iniciativas e motivou o aporte de R$ 500 mil feito pelo empresário Luiggi Senna. Bolsista integral da PUC-Rio entre 2000 e 2006, Senna destinou os recursos ao financiamento de um curso completo de Engenharia Elétrica, com seis anos de duração.
“A formação que recebi, as experiências na empresa júnior, o relacionamento com pessoas foram determinantes para minha trajetória e para quando decidi empreender. Por isso, considero justo retribuir, porque cada contribuição, por menor que seja, pode gerar impacto concreto”, relata Senna. “A educação é um campo em que acredito que podemos gerar impacto de maneira mais direta, investindo em acesso a oportunidades, formação e estímulo ao protagonismo, para ajudar a resolver problemas da comunidade”.
O casal Infante de Castro, também formado pela PUC-Rio, espera que, no futuro, os estudantes beneficiados pela Bolsa Perpétua também possam multiplicar este esforço, viabilizando o caminho de outros estudantes.
Além da Bolsa Perpétua, a Alumni PUC-Rio vem ampliando o apoio à permanência estudantil, que beneficia alunos como Juliana Maria Marques, estudante de Direito e bolsista do Projeto PUC-Rio Para Todos.
“Toda forma de apoio estudantil é importante, mas esse incentivo tem algo muito especial: ele carrega uma história. Não é apenas um auxílio financeiro. É a demonstração de que alguém que já percorreu esse caminho acredita que outros estudantes podem transformar suas vidas”, diz. “Quando eu me formar, quero ser essa mesma mão estendida para outra pessoa e espero que, daqui a dez anos, as doações sejam cada vez mais comuns, enxergando a educação como um investimento coletivo”, finaliza.