Martinho da Vila inicia última grande turnê ao lado de Mart’nália
“Tnália, estou pensando em abrir o show sozinho, com um pandeiro. Em uma das músicas, os músicos entram e eu apresento eles. Aí, digo: ‘Está faltando a percussionista’. Você aparece, então. Cantamos uma música juntos e você faz seu show”.
É dessa maneira que Martinho da Vila expõe para a filha Mart’nália, em entrevista por vídeo com o Estadão, em abril, sua ideia para a turnê Martinho da Vila e Mart’nália – Pai e Filha, que vai passar por 30 cidades brasileiras a partir de 30 de maio, quando estreia no Vivo Rio, no Rio de Janeiro – em São Paulo, a data é 27 de julho, no Espaço Unimed.
“Maneiro, maneiro. E no final você volta, né?”, pergunta Mart’nália. Esta é a primeira vez que a cantora fará um show oficialmente em parceria com o pai, embora já tenha dividido palcos esporádicos e gravações com Martinho ao longo da carreira.
Um encontro sem grandes ensaios. “Ensaiamos no palco. Tudo é possível com a gente”, afirma Martinho. “Vamos nos encontrar pelo menos uma vez, conversamos, e está tudo certo”, pondera Mart’nália, em outra janela de vídeo.
Foi o próprio Martinho quem colocou Mart’nália no palco. Ainda menina – ele tem oito filhos -, ela tocava algum instrumento de percussão, fazia um coro aqui e ali. Certo dia, o compositor fazia um show em São Paulo quando teve vontade de ir ao banheiro.
“Canta uma aí”, disse para a filha, para poder deixar o palco por alguns minutos. “Ele falou já saindo”, relembra Mart’nália. A esta altura, ela já era backing vocal do pai. Atendeu ao pedido e cantou Último Desejo, de Noel Rosa, o Poeta da Vila Isabel. “Me cagando”, ela confessa.
Martinho classifica a turnê que fará agora como “longa”. Como serão muitos shows, por todas as regiões brasileiras, ele, então, elegeu Martinho da Vila e Mart’nália – Pai e Filha como seu último grande giro pelo País. As apresentações terão datas espaçadas. “Depois, quero fazer shows no Rio, em São Paulo, Belo Horizonte”, aponta o sambista e compositor, aos 88 anos.
Parar de vez, nem pensar. “Sabe carro velho, que deixamos quietinho lá na garagem e quando vamos ligar ele emperra?”, brinca Martinho.
‘Se o artista faz só para agradar o público, ele não dura’
A reportagem do Estadão traz para a conversa a declaração de Gilberto Gil, 83 anos, que em entrevista ao jornal, em 2024, quando anunciou sua última grande turnê, Tempo Rei, encerrada em março deste ano, afirmou não ser mais “o artista da vez”. “Gil é um grande artista, será sempre o da vez”, diz Martinho, modesto.
Outra afirmação de Martinho cabe neste momento, embora tenha sido dada há 57 anos, quando o cantor iniciava sua carreira, ao jornal O Pasquim. Na época, ao ser questionado por Sérgio Cabral (1937-2024) sobre uma declaração de Elis Regina (1945-1982) que havia insinuado que Martinho não iria ficar muito tempo em evidência, respondeu: “O meio artístico não foi feito pra a gente ficar a vida toda. Foi feito pra gente ver e fazer o que pode, depois vem outro”.
Martinho venceu esse tempo de validade que quiseram colocar nele – a indústria também não queria apostar no ex-sargento do Exército. De cara, no III Festival de Música Popular Brasileira da Record, em 1967, foi destaque com Menina Moça, que ele cantarola com Mart’nália na entrevista.
Em seu primeiro álbum, Martinho da Vila, lançado em 1969, ele redefiniu o partido alto. Partideiro devagar, como está indicado no encarte do LP, tornou a música de improviso, com um refrão, em uma canção com começo, meio e fim, em versos fixos. O Pequeno Burguês, Casa de Bamba, Tom Maior e Pra que Dinheiro se tornaram clássicos – a célula disso, na verdade, já estava em Menina Moça, feita todas em rimas primárias, todas terminadas em ‘ar’.
“Atualmente, sou mais solicitado do que há 20 anos. Me chamam para tudo. Graças a Deus”, festeja. “É muita andança. Faço sempre o que eu gosto muito. Se o artista faz só para agradar o público, ele não dura. Ele tem que ter uma proposta. É para alegrar, mas também emocionar as pessoas. Assim, nos emocionamos também”, diz, atualizando a resposta dada ao Pasquim.
Paralelamente à turnê, Martinho prepara um novo álbum – o segundo, inacreditavelmente, apenas com músicas inéditas, depois do de estreia. Os demais sempre trouxeram alguma regravação – ou, “um lance informativo” – como retrata Martinho, a escolha, por exemplo, de resgatar sambas históricos como Pelo Telefone, no álbum Origens (1973), ou Patrão, Prenda Seu Gago, em Canta, Canta Minha Gente (1974).
Para esse trabalho, tem duas novas músicas de Gilberto Gil. Uma, já musicada. A outra, irá para Mart’nália. Ela festeja a decisão. Há ainda uma inédita de Jorge Ben Jor. “A música do Jorge é bacanona”, diz Martinho. São pérolas raras – tanto Gil quanto Ben Jor não compõem mais com tanta assiduidade há pelo menos uma década. Pedro Luís é outro na lista. Martinho também compôs novidades.
Nada é para já. O álbum sairá em 2027. Martinho não gosta de estar em estúdio por um período seguido. “Cansa muito”, diz. Ele faz troça com os pedidos dos produtores que solicitam mais um segundo ou terceiro take de voz, “bem à vontade”, para, no final, decidirem-se pelo primeiro.
Mart’nália também seguirá com seus projetos solo. A turnê do álbum Pagode da Mart’nália, de 2024, é um deles. Ele traz versões de canções como Essa Tal Liberdade, O Teu Chamego e Cheia de Manias – a seu modo, ou com o molho de Vila Isabel.
O pai aproveita a chamada de vídeo para fazer um elogio público à filha. “Pagode tem aquela característica de violão, cavaquinho, ritmo, coro. Músicas meio eufóricas. Você harmonizou tudo. Ficou tudo bem produzido, bem transado. É outra coisa. Pagode nem precisava de muito capricho. Mas ficou uma beleza, Tnália. Valeu!”, expressa Martinho.
Uma crítica ao original? No gênero, há cantores que trazem influência de um canto mais americanizado, algo que Martinho passou longe toda a vida, com seus pés bem fincados entre Brasil e África. Martinho prefere se abster de qualquer julgamento mais explícito.
“Não analiso o que os outros fazem. Fico só na minha” afirma. “Mesmo sem gostar, quando me perguntam o que eu achei, respondo: ‘Legal’. A Tnália é pior. Ela só responde: ‘É'”, finaliza, arrancando risadas de todos.

