MC Ryan SP é líder de esquema envolvendo bets a serviço do tráfico internacional, diz PF
Ryan Santana dos Santos, o MC Ryan SP, um dos funkeiros mais famosos do País, foi preso temporariamente nesta quarta-feira, 15, na Operação Narco Fluxo, da Polícia Federal. Ele é suspeito de liderar uma engrenagem criminosa voltada à lavagem de dinheiro do crime organizado e do tráfico de drogas, com uso de bets, rifas ilegais e empresas ligadas à produção musical e ao entretenimento.
A defesa de Ryan informou que todos os valores que transitam nas contas do funkeiro “possuem origem devidamente comprovada, sendo submetidos a rigoroso controle e ao regular recolhimento de tributos”.
A ofensiva da Narco Fluxo, que prendeu 31 suspeitos nesta manhã, mira um grupo especializado em blindagem patrimonial e ocultação de valores.
Segundo a investigação, os envolvidos transferiam participações societárias para familiares e “laranjas” “para distanciar o capital ilícito de sua pessoa física antes de reinseri-lo na economia formal, mediante aquisição de imóveis, veículos de luxo, joias e outros ativos de alto valor”.
Para a Polícia Federal, MC Ryan SP é o líder da estrutura criminosa, suspeita de movimentar R$ 1,6 bilhão para o crime organizado.
O cantor “foi identificado como líder e beneficiário econômico da engrenagem, utilizando empresas ligadas à produção musical e ao entretenimento para mesclar receitas legítimas com recursos provenientes de apostas ilegais e rifas digitais”, segundo a investigação.
‘Belga’ e ‘braço direito’
Intermediar os contratos e pagamentos entre as plataformas ilegais de apostas e a estrutura criminosa liderada por Ryan ficava a cargo de Alexandre Paula de Sousa Santos, conhecido como Belga.
Alvo de prisão temporária e busca e apreensão nesta quarta, Belga recebia, segundo a PF, valores de processadoras de pagamentos os quais repassava a empresas do artista e outros operadores financeiros.
“Ao que consta, Alexandre teria mantido intensa movimentação em sua conta bancária, realizando repasses de valores para sociedades vinculadas a Ryan e outros colaboradores. Os extratos obtidos evidenciaram, ainda, centenas de transferências fracionadas em pequenas quantias, padrão compatível com técnicas de estruturação (smurfing)”, diz a investigação.
A gestão financeira de Ryan era operada por Tiago de Oliveira, que também foi alvo de prisão nesta quarta. Segundo a PF, ele atua como “braço direito” e procurador de Ryan.
“As mensagens acessadas pela Polícia Federal revelaram que Tiago teria atuado em diversas tratativas financeiras e imobiliárias em favor de Ryan, dentre elas a negociação de um imóvel de alto padrão, demonstrando ciência das irregularidades da cadeia de propriedade, assumindo papel de pessoa interposta e facilitadora para viabilizar o controle do bem antes da posse formal, contribuindo para a aparência de regularidade da operação”, diz a investigação.
Contador do PCC
A Operação Narco Fluxo é um desdobramento das operações Narco Bet e Narco Vela, que investigaram um esquema sofisticado de lavagem de dinheiro ligado ao tráfico internacional de drogas, com uso de plataformas de apostas online e criptoativos.
Preso na Operação Narco Bet e investigado por suspeita de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC), o contador Rodrigo de Paula Morgado é apontado como operador-chave do grupo.
Segundo a Polícia Federal, ele atuava na articulação de transferências bancárias e prestava auxílio direto aos investigados em estratégias de “proteção patrimonial” envolvendo Ryan.
As mensagens interceptadas indicam que Morgado viabilizava repasses em nome de terceiros e prestava serviços de gestão financeira para atender a diferentes demandas do grupo, desde ocultação de patrimônio até evasão fiscal.
“Investigações conexas também o vincularam a atividades de suporte financeiro a outras organizações criminosas investigadas no bojo da Operação Narco Bet, o que reforça sua posição de intermediador de Ryan”, afirma a PF.
Escala internacional
Ao autorizar a Operação Narco Fluxo, o juiz Roberto Lemos dos Santos Filho, da 5.ª Vara Criminal Federal em Santos, no litoral paulista, destacou que “o conjunto de evidências colhidas pela autoridade policial indica a atuação coordenada desses indivíduos em diferentes etapas do ciclo de lavagem de capitais – captação de recursos ilícitos, estratificação por meio de empresas e contas intermediárias e posterior integração em patrimônio ostensivamente lícito -, tendo como beneficiário central Ryan”.
Segundo o magistrado, o esquema de Ryan mantém “estrutura empresarial e rede de operadores que viabilizam a circulação e ocultação de valores provenientes da exploração sistemática de apostas ilegais e rifas digitais em escala nacional e internacional”.

