Memorial vivo dos Mamonas Assassinas transforma luto e mira rota cultural em Guarulhos

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Nesta sexta-feira 27, será realizada a instalação das cápsulas no cemitério que darão origem ao memorial do BioParque. Quase trinta anos após o acidente aéreo que matou os cinco integrantes dos Mamonas Assassinas, a memória da banda ganha um novo capítulo, agora enraizado na terra de Guarulhos.

A criação do Memorial BioParque no Cemitério de Guarulhos, propõe uma ruptura simbólica com a ideia de luto estático. Em vez de apenas lápides, o espaço terá cinco árvores nativas, jacarandás nutridas com parte das cinzas dos músicos.

Segundo Jorge Santana, primo de Dinho e CEO da marca ligada à banda, a proposta nasceu da convergência entre um projeto ecológico já existente e o desejo da família de transformar a dor em permanência viva.

“A ideia nasceu do encontro entre um projeto ecológico já existente no BioParque Cemitério de Guarulhos e o desejo da gente enquanto família ressignificar o luto em torno dos Mamonas, tirando-os da lógica de ‘túmulo estático’ e transformando o local em um espaço de vida, encontro e homenagem permanente.”

Exumação 30 anos depois

A decisão de realizar a exumação três décadas após o sepultamento foi, por si só, um marco simbólico. Jorge destaca que o procedimento costuma ocorrer entre três e cinco anos após o enterro, no caso dos Mamonas, foram 30.

O formato foi discutido entre os familiares após apresentação feita pelo BioParque e pelo Grupo Primaveras. A proposta ecológica acabou recebendo aprovação unânime pela família pouco antes do anúncio público, em fevereiro de 2026.

O próprio Jorge e a esposa, Norma Santana, visitaram previamente um modelo semelhante em Minas Gerais e levaram a experiência para os demais parentes. A devolutiva, segundo ele, foi favorável.

Natureza como símbolo de continuidade

A escolha de plantar cinco jacarandás, um para cada integrante, não foi apenas estética. Há uma dimensão simbólica que dialoga com a identidade da banda e com a tentativa de transformar dor em legado.

“Transformar parte das cinzas em árvores simboliza continuidade da vida, imortalidade do legado e renovação do luto, ressignificando a perda em um ciclo de crescimento eterno que reflete a energia alegre dos Mamonas Assassinas”, diz Jorge.

As árvores serão plantadas atrás dos túmulos originais, que continuam preservados como ponto de referência histórica. Cada uma terá identificação nominal e poderá ser acompanhada por meio de sensores digitais, com atualização em tempo real via aplicativo ou QR Code.

Um espaço imersivo

A experiência proposta vai além da contemplação silenciosa. Totens interativos espalhados pelo espaço darão acesso a clipes, entrevistas, bastidores e depoimentos familiares. Bancos circulares ao redor das árvores convidam à permanência e à troca entre fãs.

Jorge acrescenta: “O visitante terá uma experiência imersiva e gratuita que combina natureza viva, tecnologia interativa e emoção coletiva, projetada para transformar luto em celebração.”

O conteúdo digital poderá ser atualizado diretamente pelas famílias, que manterão controle sobre o que será disponibilizado, tanto presencialmente quanto de forma remota.

‘Ele adorava natureza’

Quando questionado sobre como Dinho reagiria à homenagem, Jorge é direto: “Acho que o Dinho ficaria muito feliz, pois ele adorava natureza.”

A relação do vocalista com o meio ambiente também foi lembrada pelo pai, Hildebrando Alves. Em áudio enviado ao Estadão, ele recorda que o filho tinha o hábito de recolher lixo do chão e demonstrava cuidado constante com a natureza.

‘Que as pessoas sintam paz ao ver a árvore’, diz irmã de Dinho

Em entrevista ao Estadão, Grace Kellen, irmã de Dinho, compartilhou memórias íntimas, falou sobre o luto vivido ainda na adolescência e revelou facetas pouco conhecidas do vocalista dos Mamonas Assassinas.

Ela conta que tinha apenas 17 anos e estava grávida de seis meses quando perdeu o irmão. Dias antes da tragédia, havia descoberto que o sexo da bebê que esperava era uma menina e chegou a dividir a notícia com ele. “Era muito difícil assimilar tudo o que estava acontecendo. Todo mundo me dizia para ter cuidado com a bebê. Eu não consegui viver o luto profundamente naquele momento”, relembra.

Depois do nascimento da filha, decidiu homenageá-lo no nome: Alecsandera. “Fui lidando como conseguia. Às vezes chorando, às vezes tentando não mergulhar tanto na dor. Fiz o que pude naquela época.”

Ao falar sobre a árvore plantada em homenagem ao cantor, Grace expressa o desejo de que o local seja um espaço de acolhimento. “Eu espero que, ao chegar e ver a árvore do Dinho, as pessoas sintam paz. Que saibam que ele viveu intensamente, realizou sonhos e tocou vidas para sempre. Que sintam conforto em perceber que ele continua sendo amado e reconhecido. Que seja um momento de acolhimentos, que eles se sintam acolhidos na saúde, no amor e em tudo que um fã sente.”

Ela ainda afirma que transformou a ausência do irmão em propósito. “Desde que ele não está mais fisicamente aqui, eu tenho como meta viver por mim e por ele. Procuro ser uma boa filha, uma boa irmã, uma boa mãe também por ele, que não teve a oportunidade de ser pai. Quando faço algo que sinto que ele faria, estou fazendo por nós dois.”

Jaqueta e pelúcia encontrados na exumação

Uma jaqueta ligada à equipe dos Mamonas Assassinas chamou atenção durante a exumação do corpo de Dinho, realizada na segunda-feira 23, no Cemitério Primaveras, em Guarulhos, na Grande São Paulo. A peça foi encontrada preservada sobre o caixão do cantor.

De acordo com Jorge, a jaqueta havia sido colocada sobre o caixão no momento do sepultamento, em 1996. Ao ser localizada durante o procedimento recente, o item foi recolhido e passou a ficar sob responsabilidade da administração do cemitério e agora deve ser incluída em um espaço dedicado à memória da banda, como parte do acervo que preserva a trajetória do grupo.

Além da jaqueta localizada preservada sobre o caixão de Dinho, a exumação revelou outro objeto que emocionou familiares. No túmulo do guitarrista Alberto Hinoto, o Bento, foi encontrado um bicho de pelúcia colocado sobre o caixão do músico. De acordo com Cláudia Hinoto, cunhada de Bento, a pelúcia foi colocada sobre a urna de Alberto no próprio dia do sepultamento e permaneceu dentro do túmulo desde então.

Claudia diz que o objeto provavelmente foi deixado por um fã que esteve presente na despedida do músico, e a família decidiu mantê-lo junto ao caixão como forma de preservar o gesto. Para ela, o brinquedo simboliza o carinho e a admiração que o guitarrista despertava. “Acredito que foi uma maneira de alguém demonstrar o amor que sentia pelo Alberto”, afirmou.

De memorial a ponto turístico

A proposta do Memorial BioParque e Parque Primaveras vai além de uma homenagem simbólica. A família e a gestão da marca defendem que o espaço se consolide como ponto turístico oficial de Guarulhos, cidade onde os Mamonas Assassinas nasceram e de onde partiram para conquistar o país.

Jorge Santana afirma que falta sensibilidade do poder público para incorporar o legado da banda à identidade cultural do município. “Guarulhos é o segundo município mais populoso do estado de São Paulo, e os Mamonas sempre tiveram orgulho de levar o nome da cidade para o mundo. Mas percebemos que o governo não é sensível a essa questão”, diz.

Ele cita tentativas que não avançaram, como pedidos para nomear espaços públicos em homenagem ao grupo. “Não temos ajuda nem para situações simples, como nome de ruas. Já houve solicitação para que a estação Bosque Maia fosse chamada de Estação Mamonas, mas nada anda. Fica sempre no ‘vamos ver’.”

‘Quem perde é a arte’: família quer rota cultural e museu

Para Jorge, a falta de reconhecimento oficial representa uma perda cultural. “A banda que levou o nome de Guarulhos para o mundo não está na pauta de vereadores, prefeito ou governador. Quem perde é a arte, é a cultura”, afirma. Ele lembra que quem chega pelo Aeroporto de Guarulhos e percorre a rodovia Hélio Smidt não encontra referências à história artística da cidade.

O empresário acredita que o memorial pode marcar uma virada e se transformar em rota cultural permanente. No entanto, pondera que o espaço no cemitério, sozinho, não é suficiente para alcançar todos os públicos. “Nem todo mundo gosta ou se sente confortável em visitar um cemitério. Por isso, pensamos em algo maior.”

Entre os próximos passos está a criação de um Museu Mamonas Assassinas, com roupas, objetos pessoais e itens históricos da banda, ampliando o acesso à memória do grupo em um ambiente cultural mais democrático. A família também pretende fortalecer o Instituto Mamonas Assassinas, que já desenvolve projetos sociais como o Mamonas Futebol para amputados e iniciativas voltadas ao autismo.

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Estadão

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