Modelo de IA chinesa surpreende big techs dos EUA e rivaliza com Claude e ChatGPT
Um novo e poderoso modelo de inteligência artificial da China surpreendeu a indústria de tecnologia dos EUA na sexta-feira, 17, sendo o mais recente sinal de que as startups chinesas de “código aberto” estão fazendo os gigantes californianos da inteligência artificial se preocuparem.
O mais novo modelo Kimi K3, da startup Moonshot, sediada em Pequim e liderada por um empreendedor fã do Pink Floyd com doutorado em Pittsburgh, parece estar alcançando o desempenho das melhores versões do Claude, da Anthropic, e do ChatGPT, da OpenAI.
“Este pode ser o maior lançamento individual do ano”, e marca um momento em que modelos chineses de código aberto estão superando modelos americanos fechados, afirmou Anastasios Angelopoulos, cofundador e CEO da Arena, uma plataforma de avaliação de sistemas de IA.
O Kimi K3 ficou no topo das classificações da Arena na categoria chamada de “capacidade de programação front-end”, uma medida do desempenho de um modelo de linguagem de grande escala de IA. “Mais resultados estão chegando e provavelmente continuarão mostrando que o Kimi K3 está no topo do grupo”, disse Angelopoulos nas redes sociais.
Provavelmente não foi coincidência que a apresentação do K3 tenha ocorrido pouco antes do discurso de abertura do presidente chinês Xi Jinping, na sexta-feira, na Conferência Mundial Anual de Inteligência Artificial em Xangai.
As restrições lideradas pelos Estados Unidos impediram a China de acessar algumas das tecnologias mais avançadas do mundo, impulsionando os esforços chineses para desenvolver seu próprio conhecimento técnico e intensificando a rivalidade entre as duas maiores economias do mundo.
“O desenvolvimento da inteligência artificial não deve ser uma apresentação solo de nenhum país, mas sim uma sinfonia de cooperação global”, afirmou Xi no evento.
Modelos chineses de IA têm apresentado grandes avanços
O lançamento do K3 veio após outro importante lançamento de modelo de IA, feito no mês passado pela startup chinesa Zhipu, ou Z.ai. Seu novo modelo principal, GLM-5.2, já é amplamente utilizado por desenvolvedores de software no mundo todo, que dizem que esta IA consegue realizar trabalhos quase tão bem quanto os principais modelos americanos, por um preço menor.
O entusiasmo em torno do novo modelo chinês lembra o pânico que abalou o mercado após o lançamento do novo modelo da startup chinesa DeepSeek no início de 2025, embora nem todos considerem essa reação justificada. A resposta ao K3 é uma “reação exagerada surpreendentemente semelhante” ao lançamento da DeepSeek no ano passado, afirmou o analista de tecnologia Patrick Moorhead nas redes sociais. Ele disse que isso pode ser positivo para alguns segmentos da indústria de IA, mas representa um desafio de receita para a Anthropic e a OpenAI.
Durante a conferência, que vai até segunda-feira, a gigante Huawei também apresentou um novo sistema de computação de IA chamado Atlas 950 SuperPoD. O lançamento é um sinal de que a China está produzindo, cada vez mais, o hardware necessário para desenvolver tecnologia, apesar das restrições americanas às importações de fabricantes de chips como os da Nvidia.
A Moonshot não informou qual hardware utilizou para construir o K3, mas a startup é parceira da Huawei.
O preço para utilizar o K3 é o mais alto já registrado para um modelo chinês de IA, mas ainda é metade do custo do modelo GPT-5.6 Sol, de alto desempenho, da OpenAI, segundo um relatório divulgado na sexta-feira por analistas de pesquisa do Bank of America.
Políticos americanos e várias grandes empresas americanas de IA, incluindo Anthropic e OpenAI, acusaram modelos chineses de IA de realizar “destilação” ilícita dos modelos americanos para extrair as tecnologias utilizadas (ter usado IAs americanas para treinar IAs chinesas), uma acusação que Pequim afirma ser “sem fundamento”.
Em fevereiro, a Anthropic acusou a DeepSeek, a Moonshot e um terceiro laboratório chinês de IA, a MiniMax, de realizar campanhas para “extrair ilegalmente as capacidades do Claude a fim de melhorar seus próprios modelos”, utilizando a técnica de destilação, que “envolve treinar um modelo menos capaz com base nas informações de um modelo mais poderoso”.
A Anthropic afirmou que a destilação pode ser uma forma legítima de treinar sistemas de IA, mas se torna um problema quando concorrentes “a utilizam para adquirir capacidades poderosas de outros laboratórios em uma fração do tempo e a uma fração do custo que seriam necessários para desenvolvê-las de forma independente”.
Mas isso pode funcionar nos dois sentidos. A startup sediada em São Francisco, a Anysphere, criadora da popular ferramenta de programação Cursor, reconheceu que um de seus principais produtos foi baseado no modelo K2.5 da Moonshot. A SpaceX, de Elon Musk, planeja fechar um acordo para comprar a Cursor por US$ 60 bilhões ainda este ano.
K3 representa um salto para modelos de IA de “código aberto”
O cofundador e CEO da Moonshot, Yang Zhilin, obteve seu Ph.D. em 2019 na Universidade Carnegie Mellon, onde, segundo relatos, fez contribuições fundamentais para os estudos sobre aprendizado de máquina e era conhecido por seu gosto por bandas de rock como Pink Floyd.
O orgulho entre seus antigos colegas da instituição da Pensilvânia vai além da rivalidade entre Estados Unidos e China.
“Que enorme vitória para a comunidade de código aberto! Parece que foi ontem que Zhilin estava se formando no meu laboratório na CMU”, escreveu seu antigo orientador Russ Salakhutdinov, que também foi ex-diretor de pesquisa em IA da Apple.
Desenvolvedores que criam IA de “código aberto” tornam componentes essenciais da tecnologia acessíveis para que qualquer pessoa possa examiná-los, modificá-los e desenvolver novos sistemas a partir deles. Defensores dizem que práticas de código aberto promovem a inovação, enquanto críticos alertam que tornar modelos poderosos de IA publicamente acessíveis cria riscos de segurança e proteção.
