Petróleo Brent deve rondar os US$ 90 até fim do ano e ter alívio contido em 2027
Mais de sete meses após o início da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, os analistas de petróleo afirmam que o caminho para o fim do conflito é cada vez mais impossível de prever. Várias linhas vermelhas econômicas que diversos bancos e consultorias assumiram que o governo Trump não estaria disposto a cruzar – incluindo o petróleo subindo acima de US$ 100 por barril, preços da gasolina e do diesel nas alturas e avanço dos rendimentos dos Treasuries – já se materializaram, tornando a estratégia de saída menos clara.
Nesse contexto, o petróleo tipo Brent deve ficar em US$ 87 o barril no quatro trimestre deste ano e, em média, em US$ 80 ao longo de 2027, de acordo com a mediana de nove projeções coletadas pelo Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado).
O Commerzbank elevou sua previsão para o Brent no final do ano a US$ 85 por barril, de US$ 75 anteriormente, enquanto a analista do HSBC Kim Fustier alerta que os mercados de petróleo provavelmente não se reequilibrarão até meados de 2027. Ela diz que o cenário base do HSBC é para um entendimento frágil entre os EUA e o Irã, mas que permanece suscetível a colapsos recorrentes e incertezas.
Diante dessa perspectiva mais restrita, o HSBC elevou sua previsão para o Brent no quarto trimestre de 2026 de US$ 80 para US$ 90 por barril. Em um cenário de impasse, onde a diplomacia falha e os fluxos permanecem restritos, os estoques podem atingir níveis operacionais baixos, potencialmente elevando o Brent para cerca de US$ 120 por barril, alerta.
O vice-presidente da Rystad Energy no Brasil, Raphael Faucz, afirmou ao Broadcast que, apesar de 16 milhões de barris estarem saindo neste momento do Estreito de Ormuz, os altos custos de frete e os baixos estoques estão ancorando os níveis de preço atual do petróleo. “Quando chegamos em barris perdidos de produção neste ano, ficamos perto de 3 bilhões de barris”, pontua.
Além disso, Faucz define os fluxos atuais na região como “frágeis”, podendo ser interrompidos a qualquer momento. “Acredito que o mercado entende como isso é frágil e que você não pode reduzir o prêmio de risco nesse momento em que estamos tendo, há poucas semanas, de fato, fluxos mais sustentados e elevados”.
O Goldman Sachs estima que o mercado global de petróleo ficou aproximadamente equilibrado em setembro, à medida que as exportações do Golfo se recuperaram. Assim, a adaptação tanto do fornecimento do Oriente Médio quanto da demanda de importação da China apoia o cenário do banco de que os preços do Brent moderem para US$ 85/barril até o final do ano e para US$ 80 em 2027. “Dito isso, ainda nos preocupamos com uma potencial escalada renovada que danifique mais a infraestrutura energética, o que poderia causar uma alta significativa nos preços”, ponderam os economistas.
Com viés mais otimista, o Citi reforça que discussões nos países do Golfo sobre uma diplomacia regional podem ganhar tração, permitindo a reabertura dos fluxos em Ormuz e no Mar Vermelho. Com isso, o banco mantém o cenário base de o Brent voltar a cair no ano que vem, com média em torno de US$ 65, à medida que 2027 avança.
Apesar das “artérias de exportação de petróleo” do Oriente Médio estarem fluindo novamente, analistas do JPMorgan apontam preços elevados neste e no próximo ano. O banco espera o WTI em US$ 80 o barril e o Brent em US$ 85 o barril até o fim do ano, com os preços recuando para US$ 61 e US$ 67, respectivamente, no primeiro trimestre de 2027.
Além de grandes bancos e consultorias, a Agência de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA, na sigla em inglês), vinculada ao Departamento de Energia (DoE), aumentou a projeção para o preço médio do Brent em 2026 e 2027 no último dia 6. A EIA passou a estimar que o Brent ficará, em média, em US$ 96 por barril em 2026, acima dos US$ 91 previstos no relatório anterior. Para 2027, a agência elevou a projeção de US$ 74 para US$ 84 por barril.
Segundo Faucz, parte do prêmio de risco nunca será totalmente eliminada, e o poder que o Irã exerce sobre o Estreito de Ormuz tende a permanecer como uma “sombra perene” no mercado. A projeção-base da Rystad Energy é de um impasse prolongado, com as exportações do Irã seguindo limitadas pelos EUA, o que deve manter os preços em níveis mais elevados no ano que vem.
Diesel e gasolina
Os produtos refinados, como gasolina e diesel, são o que mais preocupa líderes globais, já que os preços elevados pesam no bolso dos consumidores. Nos EUA, o galão de diesel passou de US$ 6 e o de gasolina chegou a US$ 5 em alguns Estados antes das eleições de meio de mandato de novembro, quando o presidente Donald Trump buscará reafirmar a maioria republicana no Congresso, apesar da baixa aprovação.
Em meio à pressão de Trump para que a Europa liberasse estoques de diesel, os líderes do G7 anunciaram em 2 de outubro um pacote coordenado de medidas para conter a volatilidade nos mercados de energia. O plano prevê a liberação de 100 milhões de barris de estoques estratégicos ao longo de quatro meses, com início imediato e prioridade ao diesel nos primeiros 20 dias. No dia 10 deste mês, Trump também anunciou que chegou a um acordo com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, para o fornecimento imediato de mais de 300 mil toneladas de diesel ao mercado americano e internacional.
Para Faucz, a ação do G7 busca oferecer alívio mais rápido ao mercado, mas, do ponto de vista estrutural, não muda “absolutamente nada”. Sobre a possibilidade, não descartada pela consultoria, de os EUA imporem restrições às exportações, ele alerta que o Brasil hoje importa 25% de todo o diesel consumido e que isso poderia provocar um aperto no mercado de petróleo no País “talvez nunca antes visto”.
A Agência Internacional de Energia (AIE) avalia que a escassez no mercado de produtos refinados se tornou mais aguda. “A alta tanto nos preços futuros do petróleo bruto quanto nos preços físicos é insignificante em comparação com a dos produtos refinados, onde a escassez de mercado é agora mais aguda”, afirmou a entidade no mês passado.