Polícia diz ter provas de que tenente-coronel preso por feminicídio alterou local do crime

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

*Alertas: o texto abaixo aborda temas sensíveis como violência contra a mulher, violência doméstica e estupro. Se você se identifica ou conhece alguém que está passando por esse tipo de problema, ligue 180 e denuncie.

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo afirmou nesta quarta-feira, 18, ter provas de que a soldado Gisele Alves Santana, de 32 anos, foi morta. O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, foi preso preventivamente nesta manhã por feminicídio. A instituição também disse ter provas de que ele alterou o local do crime para forjar que a vítima teria cometido suicídio.

“As investigações constataram inconsistências significativas contra a conduta de Geraldo Neto após o disparo da arma até a formalização da ocorrência, o que compromete a credibilidade da sua versão. As provas periciais médico-legais indicam a inviabilidade da hipótese de suicídio, além de apontar indícios de alteração no local do crime”, disse o secretário da Segurança, Osvaldo Nico Gonçalves.

“Hoje, a gente pode concluir que a hipótese de suicídio está afastada e que tem indícios contundentes de que ele fez a alteração do local. Isso é o que levou ao pedido da prisão”, completou Dênis Saito, delegado do 8° DP, responsável pela investigação.

De acordo com a polícia, a prisão ocorreu dentro do prazo de 30 dias e após a constatação de provas. O oficial foi conduzido por equipes da Polícia Civil ao 8º DP e deve ser encaminhado ao Presídio Militar Romão Gomes, unidade destinada a integrantes da corporação, onde permanecerá à disposição da Justiça.

“A nossa intenção é a promoção da justiça, a busca incessante da verdade real. E é isso que aconteceu nesse caso. Obviamente, a Polícia Militar sai maculada disso, porque um de seus integrantes está preso preventivamente acusado de feminicídio. Mas a gente corta na própria carne para demonstrar que não há diferenciações quanto ao autor, principalmente em delitos como esse, voltados à violência contra a mulher. Não é motivo de orgulho isso, é o cumprimento do dever, e nosso dever vem em primeiro lugar”, afirmou em coletiva de imprensa o comandante-geral da PM, José Augusto Coutinho.

O pedido de prisão foi fundamentado na necessidade de garantir a integridade do processo. Segundo as autoridades, a liberdade do tenente-coronel representava um risco direto para a elucidação do caso.

A Justiça de São Paulo determinou no dia 10 de março que a polícia investigasse a morte da policial como feminicídio.

Suicídio descartado

Segundo Geraldo Neto, a esposa teria tirado a própria vida dentro de casa no dia 18 de fevereiro, momentos depois de uma discussão na qual ele teria proposto a separação do casal. Na versão do policial, ele estava no banho no início da manhã daquele dia quando ouviu o barulho de um disparo e, em seguida, encontrou Gisele já baleada no chão.

Em entrevista à TV Record, Geraldo Neto falou sobre o caso e negou ter matado Gisele. “Eu estava no banho e escutei um barulho forte. Não desliguei o chuveiro, apenas abri o box. Quando eu abri o box, eu abri um pedacinho da porta. Achei que ela estivesse em pé na porta do banheiro querendo falar comigo. Quando eu abri a porta, deu pra ver. Ela estava caída no meio da sala com a cabeça no chão. Tinha uma poça de sangue se formando ao lado da cabeça. Foi a cena mais traumatizante… a pior cena que já vi em toda a minha vida”, afirmou.

O laudo da exumação da soldado aponta que ela sofreu lesões “contundentes” no pescoço. Na versão do marido, ela teria cometido suicídio após uma discussão entre os dois.

“Existiram lesões na face e região cervical. São lesões contundentes por meio de pressão digital e escoriação compatível com estigma ungueal” (causadas pela unha), aponta o laudo, ao qual o Estadão teve acesso. O documento indica ainda que não foram observadas lesões típicas de defesa.

Quando questionado se Geraldo Neto havia sido o responsável pelas marcas no pescoço da vítima, o delegado Dênis Saito respondeu apenas que esta era “uma questão sensível, que está sob sigilo”.

Segundo Neto, as marcas no pescoço da vítima podem ter sido causadas pela filha de Gisele, uma criança de sete anos, durante um passeio.

“São marcas recentes. Para saber sobre o autor das marcas, são necessários exames complementares a partir da análise desses vestígios. Então, por ora, a gente não consegue dizer quem fez, mas foram feitas por uma segunda pessoa, não por ela”, afirmou Amanda Rodrigues Marinone, perita criminal responsável pelo caso. Apesar disso, não há indícios de asfixia.

“A princípio, não há indício de premeditação do crime. Aparentemente trata-se de crime violento causado pela emoção do momento”, afirmou o delegado Dênis Saito.

Polícia aponta que limpeza do apartamento por agentes da PM foi ‘ato humanitário’

O corregedor da PM, Alex dos Reis Asaka, negou que as três policiais mulheres encarregadas de limpar o apartamento onde Gisele foi morta tivessem a intenção de interferir na cena do crime. Elas estiveram no local após as autoridades liberarem o espaço.

“As policiais fizeram a limpeza por uma questão de humanidade. No primeiro momento, a notícia que se tinha era de um suicídio. A polícia já tinha passado e liderado o local do crime. Então, não havia empecilho legal e técnico para que não fosse feita a limpeza. Em momento algum, essa limpeza foi feita no sentido de suprimir qualquer tipo de prova”, disse o corregedor.

As agentes foram designadas a realizar a limpeza pela própria polícia. O corregedor refutou que a tarefa tenha sido um desvio de função. Também disse que o pedido de limpeza não foi solicitado por Geraldo Neto.

“Partindo do pressuposto de que era um suicídio e o local de crime já estava liberado, então não havia problema nenhum a gente prestar esse apoio para a família do policial militar”, afirma Asaka. “Toda vez que acontecer esse tipo de coisa, onde a gente perceber que é possível minimizar a dor das pessoas, a Polícia Militar vai, de forma humanitária, ajudar.”

Polícia não avalia envolvimento de desembargador

Segundo as investigações, o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan não interferiu na cena do crime. O magistrado é amigo de Geraldo Neto e esteve na cena do crime momentos após a chegada da polícia.

Neto ligou para o desembargador logo depois da morte. O magistrado esteve no apartamento quando os socorristas ainda estavam no local.

“O desembargador não interferiu na cena do crime, ele estava lá como um amigo de Geraldo Neto”, afirmou o corregedor da PM, Alex dos Reis Asaka.

“Tinham inúmeros policiais na cena com câmeras corporais. Foram horas e horas de análises das gravações, e realmente não tem nada. Não houve nenhum comportamento atípico”, afirmou o delegado Dênis Saito.

PUBLICIDADE
Estadão

Todas as notícias de Londrina, do Paraná, do Brasil e do mundo.