Promotoria liga Senival do PT a esquemas de Deolane, ‘concierge do PCC’ e Carbono Oculto
A segunda fase da Operação Última Parada liga o vereador paulistano Senival Moura (PT) – preso nesta quarta, 28, sob suspeita de atuar na ‘gestão financeira’ de uma empresa de ônibus usada pelo PCC -, à estrutura de outros três grandes esquemas de lavagem de dinheiro atribuídos à influenciadora e advogada Deolane Bezerra dos Santos, ao empresário Willian Agati, ‘concierge’ da facção criminosa, e personagens da Operação Carbono Oculto, que chegou ao andar de cima do crime organizado na Faria Lima.
A defesa do vereador manifestou “sua discordância quanto à decisão judicial que decretou sua prisão preventiva por entender que a medida extrema não encontra fundamentação concreta suficiente para justificar a privação de sua liberdade”.
Documento de 291 páginas do Ministério Público estadual, subscrito por um grupo de seis promotores de Justiça – todos do Gaeco, que enfrenta o crime organizado – destaca passo a passo os movimentos de Senival ‘Presidente’ ou Senival ‘Véio’, como ele é conhecido, segundo a investigação – e indica relações suas com personagens da Operação Vérnix, que prendeu Deolane em maio, e da Operação Mafiusi, que prendeu o ‘concierge’ por suposto elo com a máfia italiana.
Essa é a segunda vez que Senival é preso no âmbito da Operação Última Parada. O parlamentar foi detido pela primeira vez em 25 de junho e solto em 5 de agosto. Após passar 40 dias preso na carceragem do 8.º Distrito Policial, no Brás, o vereador usou a tribuna do Plenário 1.º de Maio, na Câmara de São Paulo, para rebater a investigação e afirmou que foi “pintado como o demônio”.
Por meio da Transunião Transportes, o grupo de Senival teria ocultado e dissimulado a origem de R$ 50 milhões do crime organizado na forma de integralização do capital e distribuição de lucros e dividendos a empresa, ‘valores provenientes do tráfico ilícito de entorpecentes e outros crimes praticados por integrantes da organização criminosa PCC’.
Segundo os promotores, o dinheiro foi convertido em ativos lícitos e utilizados na atividade econômica da Transunião, para aumentar o capital social da empresa e habilitá-la e capacitá-la economicamente para a licitação da prestação do serviço de transporte público urbano na cidade de São Paulo.
Os promotores sustentam que Senival é uma figura central do núcleo de comando da Transunião, a empresa de ônibus supostamente ligada à facção. Embora não ocupasse formalmente um cargo de direção na companhia, o vereador seria responsável por sua gestão financeira e por decisões sobre seu funcionamento.
Deolane Bezerra teria lavado ‘um oceano de dinheiro’ da cúpula da facção via uma transportadora fantasma situada em Presidente Venceslau, no interior de São Paulo. Segundo os promotores, as investigações já haviam identificado relações patrimoniais e empresariais entre Everton de Souza, o ‘Player’, apontado como braço direito da influencer, e Lourival de França Monário, o ‘Orelha’, dirigente da Transunião, a empresa ligada ao PCC e da qual o vereador petista seria o ‘gestor financeiro’.
‘Player’ mantinha ‘relações diretas’ com familiares de Alejandro Juvenal Herbas Camacho e seu irmão Marco Willians Herbas Camacho, o ‘Marcola’, líder máximo do PCC, preso há trinta anos. A Promotoria atribui a ele o papel de ‘operador do PCC, responsável pela intermediação patrimonial e financeira entre integrantes da organização criminosa e estruturas empresariais utilizadas para movimentação e ocultação de recursos’.
A Promotoria une ‘Player’ e ‘Orelha’ por indícios de ‘expansão patrimonial sem lastro econômico aparente’. “Além disso, Deolane Bezerra figurava no contexto desta investigação antes da Operação Vérnix, tendo sido mencionada em relatório do LAB-LD (Laboratório da Polícia Civil de Lavagem de Dinheiro) em razão de transações financeiras envolvendo indivíduo ligado ao núcleo familiar Camacho.”
Segundo a investigação, ‘Orelha’ está vinculado indiretamente ao mesmo grupo de Senival do PT, por meio de relações patrimoniais com o núcleo de Éverton de Souza, o ‘Player’ de Deolane.
Para os promotores do Gaeco, os fatos revelados pela Operação Vérnix ‘não constituem elementos isolados, mas corroboram informações previamente obtidas na investigação que envolveu a Transunião, reforçando os indícios de utilização de pessoas interpostas e de estruturas empresariais para a circulação, ocultação e integração de ativos em benefício do PCC’.
Relatório Técnico encartado aos autos mostra que a Transunião, no período de 10 de outubro de 2018 a 23 de julho de 2020, recebeu em um conjunto de onze contas bancárias créditos totais de R$ 545, 47 milhões e débitos totais de R$ 545,1 milhões distribuídos em 146.551 lançamentos, dos quais R$ 24,75 milhões em créditos e R$ 196,45 milhões em débito – a investigação não logrou identificação de origem ou destinação desse montante.
Lourival ‘Orelha’ ostenta a posse de uma frota veículos de luxo, das marcas Porsche, Jaguar e Land Rover – patrimônio ‘incompatível com o endereço residencial declarado à Junta Comercial e com a remuneração que supostamente auferia’.
Os promotores avaliam que para além da estrutura societária formal da Transunião Transportes, atuava um núcleo de comando e articulação estratégica da organização criminosa, responsável pela definição das diretrizes financeiras, gestão da frota e tomada das principais decisões empresariais.
Nesse contexto, afirma o Ministério Público, Senival do PT e Lourival ‘Orelha’ ‘integravam esse núcleo dirigente, atuando de forma coordenada na condução dos interesses do grupo, seja por meio da liderança e influência decisória, da articulação operacional, da ocupação de cargos formais de direção ou da gestão informal da companhia, exercendo efetivo controle sobre as atividades da Transunião’.
Em outra frente da investigação, os promotores destacam o nome Willian Agati, apontado como o ‘concierge’ do PCC, supostamente ligado à máfia italiana, segundo a Operação Mafiusi, deflagrada pela Polícia Federal para apreensão de duzentos quilos de cocaína no Porto de Paranaguá, no Paraná.
A investigação aponta que Lourival ‘Orelha’ é um dos alvos da Mafiusi sob suspeita de integrar esquema organizado e estruturado de lavagem de dinheiro proveniente do tráfico internacional de drogas liderado por Willian Agati.
A Promotoria ressalta que Senival figurou entre os alvos da segunda frase da Operação Última Parada com maior volume financeiro no período analisado, tendo movimentado, entre 1 de janeiro de 2019 e 17 de maio de 2022, o montante de R$ 4,39 milhões a crédito e R$ 4,39 milhões a débito, distribuídos em 3.134 lançamentos bancários, sendo R$ 2,47 milhões em movimentação sem origem declarada.
Chamou a atenção dos investigadores a quantidade de depósito em espécie, no total de R$ 330,7 mil. Foram identificados três imóveis pertencentes a Senival do PT que representam um patrimônio somado superior a R$ 1,81 milhão, além de uma propriedade rural no município de Extrema, em Minas, ‘revelando patrimônio substancialmente superior à remuneração formalmente conhecida enquanto vereador’.
Construção artificial
Segundo a Promotoria, Senival do PT ‘ocultou e dissimulou valores oriundos do tráfico de drogas e de outras atividades do PCC mediante sua utilização na constituição, expansão patrimonial e funcionamento da Transunião Transportes, exercendo controle de fato sobre a gestão financeira da empresa’.
“Valendo-se de terceiros para figurar formalmente como sócios, acionistas e proprietários de bens, Senival Moura participou da construção artificial da capacidade econômico financeira da companhia, autorizando movimentações financeiras e mantendo o controle dos recursos ilícitos posteriormente incorporados ao capital social e à atividade econômica da empresa”, alegam os promotores.
A investigação destaca a presença na escrituração da Transunião de empresas posteriormente vinculadas à Operação Carbono Oculto, a maior investigação já deflagrada para combater a infiltração do crime organizado na economia formal e que atingiu fintechs instaladas na região da Avenida Faria Lima, endereço do ‘andar de cima’ do PCC.
Segundo os promotores, o rastreamento ‘indica convergência financeira e utilização da estrutura empresarial para circulação e ocultação de valores’. Eles veem conexão com a Operação Carbono Oculto.
Demonstrações contábeis de 2021 mostram que a empresa Duvale Distribuidora de Petróleo e Álcool aparece como a principal fornecedora individual da Transunião, com saldo superior a R$ 2,3 milhões registrado na conta de fornecedores.
No entendimento dos promotores, esses dados ganham maior gravidade porque a Duvale, segundo as investigações das Operações Tank e Carbono Oculto, ‘integra uma estrutura organizada de lavagem de dinheiro’.
Segundo o Ministério Público, a empresa não atuaria como distribuidora legítima de combustíveis, mas como intermediária central em um esquema de lavagem de capitais, envolvendo pessoas jurídicas de fachada, fintechs e transações sem base econômica real.