Sabíamos que parágrafo extra de comunicado/Copom geraria surpresa, diz Picchetti
O diretor de Política Econômica e de Assuntos Internacionais e Gestão de Riscos Corporativos do Banco Central, Paulo Picchetti, fez uma longa explicação nesta quinta-feira, 25, sobre o mais recente comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom), recebido negativamente pelo mercado. Segundo o diretor, a surpresa pode ter ocorrido porque o texto teve uma estrutura diferente da usual.
O Copom cortou a Selic de 14,5% para 14,25%, mesmo aumentando sua projeção de inflação para o horizonte relevante (3,5% para 3,7%). No comunicado, informou que a trajetória de política monetária necessária para assegurar a convergência no 4º trimestre de 2027 levaria a um IPCA abaixo da meta nos trimestres seguintes. Por isso, o comitê avaliou que “trajetórias alternativas” que levariam a inflação a 3% no 1º trimestre de 2028 ajudariam a não adicionar volatilidade à economia.
“A gente sabia que era uma decisão muito difícil pela conjuntura de toda incerteza, e pela deterioração do cenário que está expressa nesse balanço de riscos assimétrico altista”, disse Picchetti. “A gente optou pela transparência, porque era uma decisão que tinha de ser bem qualificada. E a gente achou que essa reação vinha no sentido de ser claro demais; e, na verdade, teve uma reação no sentido de falar que foi bastante confuso.”
Segundo o diretor, o fato de o BC ter condensado uma série de discussões em um único parágrafo pode ter levado a uma dificuldade de entendimento, o que abre um debate sobre o “tamanho ótimo do comunicado”. No entanto, mesmo na ata do Copom, parte da sociedade continuou apontando dificuldade de compreender o texto – o que, para Picchetti, pode ser atribuído a uma falta de “guidance” para o futuro, ou ao fato de o Copom ter cortado mesmo apontando uma piora do cenário.
“Por estar num cenário bastante incerto, e a mudança de números de expectativas, de projeção e de leituras correntes entre o Relatório de Política Monetária passado e este, eu acho que fundamenta muito bem essa cautela por parte do Copom. A gente não vê valor esperado positivo em se comprometer com uma sinalização explícita nesse momento, que simplesmente nos tiraria graus de liberdade”, disse.
Ele acrescentou, ainda, que o BC optou por sinalizar o que ocorreria no primeiro trimestre de 2028 por considerar que a inflação seria puxada para cima por um choque de oferta, que se dissiparia até esse horizonte. Portanto, a relação custo-benefício seria mais alta do que de adotar uma trajetória de juros suficiente para forçar o IPCA à meta no quarto trimestre de 2026.
Picchetti ainda criticou a ideia de que o BC pudesse ter um viés dovish por se opor a obter uma inflação abaixo da meta por vários trimestres. “Eu queria deixar bem claro que, pela própria natureza do regime de meta, os intervalos de tolerância existem para acomodar eventuais desvios que são resultados de choques de oferta”, disse.
