Spike Jonze: Relações com IAs vão acontecer, temos que pensar em como fazê-las positivas

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Spike Jonze subiu ao palco do São Paulo Innovation Week nesta sexta-feira, 15, projetando uma imagem perfeitamente alinhada à própria trajetória: usando óculos de aros grossos e vestindo uma camisa de gola azul, jaqueta e calças pretas. A estética exalava uma mistura de diretor cult e skatista envelhecido, em visual de acordo com alguém que transitou com naturalidade entre a cena underground, dirigindo clipes musicais nos anos 90, a poderosa indústria de Hollywood e o universo sofisticado das grandes campanhas publicitárias.

Principal atração do festival de inovação e tecnologia, Jonze participou de uma conversa no Pacaembu que passeou pelos principais momentos de sua carreira. A mediação do papo ficou a cargo de Leonardo Cruz, editor executivo do Estadão, e da atriz Maria Ribeiro, autora do recente Não Sei Se É Bom, Mas é Teu, que confessou que “estava tensa” em participar do painel.

Jonze é responsável por alguns dos filmes mais comentados dos últimos tempos, como Quero Ser John Malkovich (1999) e Adaptação (2002), frutos de parcerias com o roteirista Charlie Kaufman, e Ela (2013), drama considerado “profético” sobre os avanços da inteligência artificial e pelo qual ele venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original.

A discussão começou em torno de Weapon of Choice, videoclipe de Fatboy Slim dirigido por Jonze e estrelado por Christopher Walken, cuja performance dançando pelo hotel se tornou emblemática. O clipe, premiado com um Grammy, levou Jonze a comentar sobre como costuma construir narrativas visuais a partir da música. “Meu processo sempre foi colocar a canção em repetição e anotar qualquer ideia que surgisse. Meu pai adorava O Franco Atirador (1978) e eu sempre quis filmar o Christopher Walken dançando”.

Maria Ribeiro quis entender melhor como Jonze conduz e orienta músicos e atores durante o processo criativo. “Trabalhar com atores é olhar para a imaginação deles. Eles são muito diferentes. Você começa um filme e tem que aprender a linguagem daquele ator. Já os músicos estão sempre muito confortáveis quando são filmados”, respondeu o americano.

Os palestrantes exibiram então uma das cenas mais surreais e cômicas de Quero Ser John Malkovich: o momento em que John Malkovich atravessa o portal e entra na própria mente. Na sequência, ele se vê cercado por dezenas de versões de si mesmo, todas com o rosto de Malkovich, em um restaurante onde absolutamente todos, dos clientes aos garçons, falam apenas a palavra “Malkovich”.

Leonardo Cruz lembrou como o longa-metragem abordou o desejo de viver pelos olhos de outras pessoas, algo que as redes sociais proporcionam de certa forma. “Pensando com a cabeça de quase vinte anos atrás, quando fizemos o filme, é surreal ver como tudo se transformou. Hoje todos têm seus próprios canais de TV”, afirmou Jonze.

Maria mencionou que Adaptação é seu filme favorito do cineasta. A película misturou ficção e metalinguagem para mostrar como a crise criativa pode consumir a própria narrativa. Ao falar sobre os bloqueios que sofre em seu ofício, Jonze disse: “Se fico preso em algo, em alguma cena, pergunto ao personagem por que tal cena não funciona, e imagino como esse personagem responderia. Sets de filmagem são estressantes porque você tem pouco tempo para trabalhar”.

‘Estúdio não queria aquele filme’

Ao comentar Onde Vivem os Monstros (2009), uma adaptação mais sombria do clássico da literatura infantil de Maurice Sendak, ele disse que precisou lutar contra a Warner Bros. para viabilizar a produção. “Procurei fazer um filme que respeitasse a vida interior das crianças. Tentei capturar meus sentimentos quando tinha aquela idade. O estúdio ficou bravo, não queria aquele filme, queria algo mais seguro”, contou ele. “Mas resolvi isso lutando com eles”, brincou.

Ao abordar Ela, foi questionado por Maria sobre como o filme nos ajuda compreender a ligação dos jovens com a tecnologia. “As relações com IAs vão acontecer, então temos que pensar em como fazê-las positivas”, projetou. “Mas essas coisas [IAs e chatbots] são feitas por corporações capitalistas que possuem uma agenda, e essa é a parte perigosa disso”.

Em seguida, em um dos momentos mais bem humorados do painel, Cruz convocou uma pergunta complexa proferida por uma agente de IA simpaticamente batizada de Joana. “Você acredita que o amor verdadeiro exige exclusividade e um corpo físico? Ou a partida da [personagem de Ela] Samantha foi a evolução transcendente definitiva do amor?”, indagou a voz robótica. “Eu não sei. Ouvir essa pergunta me deixou meio tonto (risos)”, respondeu Jonze, arrancando risadas da plateia.

Por fim, o cineasta ainda brincou com o público regendo uma vocalização em uníssono, antes de agradecer aos fãs e dizer que o Brasil é um lugar “muito vivo e vibrante”.

SPIW

O São Paulo Innovation Week, maior festival global de tecnologia e inovação, é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, e termina nesta sexta, 15. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento, estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre muitas outras.

No fim de semana, o festival leva uma série de eventos paralelos (side events) gratuitos para quatro Centros Educacionais Unificados (CEUs) da cidade, em parceria com a Prefeitura de São Paulo. São eles: Heliópolis, Freguesia do Ó, Papa Francisco (Sapopemba) e Silvio Santos (Cidade Ademar). Não é necessário fazer inscrição; o acesso será por ordem de chegada, sujeito à lotação dos espaços. A programação gratuita reúne nomes como Marcelo Gleiser, Maria Homem e Ivair Gontijo em debates e experiências imersivas.

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Estadão

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