‘Tenho a sensação de que estamos à beira de um novo fascismo’, diz Nobel da Paz Dmitri Muratov
O mundo atravessa diversos períodos de escassez de atributos psicológicos e, no momento, estamos em uma era da escassez da realidade. Para Dmitri Muratov, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, vivemos em uma sociedade influenciada pela fake news e pelos algoritmos, e que estamos prestes a ver um novo ressurgimento do fascismo no mundo.
O tema foi abordado no painel Coragem e Liberdade: Histórias que Transformam, durante o São Paulo Innovation Week, nesta quarta, 13. Maior festival global de tecnologia e inovação, o evento é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, até sexta, 15. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre muitas outras.
Muratov é jornalista e um dos fundadores do Novaya Gazeta, um jornal independente criado na Rússia em resposta à opressão de mídias no país. Seu trabalho no jornal lhe rendeu, em 2021, o Prêmio Nobel da Paz em 2021, dando destaque à sua luta por uma imprensa mais livre. O jornalista atuava como editor-chefe do Novaya Gazeta até que o veículo suspendeu suas atividades online e impressas após o aumento da censura russa com o início da guerra na Ucrânia.
No palco do SPIW, Muratov abriu seu painel relembrando os sete jornalistas do Novaya que morreram desde o início da operação do jornal. Ele afirmou que chegou a considerar o fechamento do jornal mas que o projeto era uma forma de continuar lutando pela liberdade de imprensa na Rússia.
“Eu considerei que o jornal havia se tornado mortalmente perigoso para eles (os repórteres) e propus fechar nossa publicação. Mas os jornalistas se recusaram a obedecer. Eles me responderam: ‘É nossa escolha pessoal conduzir investigações, fazer reportagens. É nossa função separar a verdade da mentira’. Nosso acionista, Mikhail Gorbachev, os apoiou. Ele disse: ‘Sem liberdade de expressão, a ditadura e o fascismo podem voltar'”, aponta Muratov.
Ainda com o Novaya Gazeta, o jornalista esteve presente em diversas coberturas que considera histórica para o veículo, como o caso Panamá Papers, em 2016, o desaparecimento do voo da Malaysia Airlines MH370, em 2014, e o caso do submarino Kursk, em 2000. “Quando recebi a medalha do Nobel – claro, essa medalha pertence ao jornal, não a mim -, eu disse que queria que os jornalistas morressem de velhice. Como vocês podem ver, isso nem sempre dá certo”, diz.
Verdades e algoritmos
Muratov também alertou sobre o risco das fake news e das imagens geradas por inteligência artificial para o jornalismo e a forma como esses conteúdos ocupam o espaço dos fatos e chegam às pessoas pelas redes sociais. De acordo com o Nobel da Paz, vivemos em um tempo em que a nossa atenção é um bem valioso e os algoritmos lutam por ela com publicações atraentes, mesmo que elas sejam mentira.
Com isso, surgem o que ele chama de “mentiras atraentes”, que se tornam mais fáceis e acessíveis ao público nas redes sociais. Isso ocorre tanto pelo funcionamento dos algoritmos, que tendem a priorizar conteúdos virais, quanto pelo engajamento que essas publicações geram. Um exemplo é a foto gerada por IA do papa Francisco com um grande casaco branco Balenciaga, marca espanhola de luxo. A foto foi criada em um programa de inteligência artificial e é falsa, mas quando viralizou na internet, muitas pessoas acreditaram ser real.
“A mentira é atraente, enquanto a verdade parece horrível. Então, será que ela é necessária? A mentira custa pouco, mas a verdade custa a vida. As pessoas estão dispostas hoje a pagar pela verdade ou isso é algo que só nós, jornalistas, precisamos? Existe demanda pela verdade? As pessoas precisam da verdade ou lhes bastam suas próprias convicções pessoais? As pessoas estão dispostas a gastar seu tempo para descobrir a verdade?”, pergunta Muratov.
Autoritarismos e governos
Segundo o Nobel da Paz, governos populistas estão utilizando a democracia como uma forma de chegar ao poder e utilizá-los para seus próprios fins – uma forma de perpetuar, por diversos meios, uma espécie de regime de poder pessoal. “Os ditadores utilizam os mecanismos da democracia para chegar ao poder, mas nunca o entregarão voluntariamente”, afirma.

