Vini Jr. passou por 20 casos de racismo em oito anos de Real Madrid
A hostilidade enfrentada por VinIcius Júnior no futebol europeu deixou de ser episódica há muito tempo. Ela tem datas, locais, protagonistas e, em alguns casos, decisões judiciais. O episódio mais recente, ocorrido no Estádio da Luz, em Lisboa, durante o duelo entre Benfica e Real Madrid pela Champions League, marcou o 20º caso de racismo sofrido pelo brasileiro desde que chegou ao clube espanhol, em 2018.
O confronto em Portugal ampliou uma lista que já atravessava a Espanha inteira. Vini Jr. foi insultado em arquibancadas, alvo de cantos racistas, gestos imitando macacos, ameaças de morte e até representado por um boneco negro pendurado em uma ponte, vestindo sua camisa. Em alguns episódios, nada aconteceu. Em outros, a pressão pública e institucional resultou em condenações inéditas no país.
A perseguição levou o jogador a depor em tribunais e transformou sua trajetória esportiva também em uma batalha política e social. Em meio a um cenário historicamente permissivo com os chamados “futebol raiz” e “provocações do futebol”, La Liga e a Justiça espanhola passaram a agir com mais rigor apenas nos últimos anos – muitas vezes impulsionadas pela insistência do próprio atleta em não se calar.
Agora, com a abertura de um procedimento disciplinar pela Uefa após a acusação contra Gianluca Prestianni, o problema ultrapassa novamente as fronteiras da Espanha e chega oficialmente a Portugal.
OS 20 CASOS DE RACISMO SOFRIDOS POR VINÍCIUS JÚNIOR
Um levantamento da BBC trouxe todas as vezes em que Vini Jr. foi alvo de episódios racistas no futebol europeu. Confira:
1º – Outubro de 2021 – Camp Nou (Barcelona): ofensas racistas durante substituição em um clássico. Caso arquivado por falta de identificação do autor;
2º – Março de 2022 – Mallorca: torcedores imitaram sons de macaco e gritaram para o jogador “pegar bananas”. Autoridades consideraram o ato “lamentável”, mas não criminoso;
3º – Março de 2022 – Programa El Chiringuito: Pedro Bravo sugeriu que Vinícius deveria “parar de agir como um macaco”. Pediu desculpas depois. Nenhuma punição aplicada;
4º – Setembro de 2022 – Atlético de Madrid (arredores do estádio): cantos racistas antes da partida. O Ministério Público não apresentou denúncia;
5º – Janeiro de 2023 – Madri: boneco negro com a camisa de Vinícius foi pendurado em uma ponte. Quatro envolvidos foram condenados a penas de prisão, depois convertidas em multas e restrições;
6º – Fevereiro de 2023 – Mallorca: novos insultos racistas durante partida. Sem punições esportivas relevantes;
7º – Março de 2023 – Barcelona (Camp Nou): ofensas reiteradas durante clássico. Caso encerrado sem sanções;
8º – Abril de 2023 – Valladolid: Vinícius foi novamente alvo de cânticos racistas. Investigações não avançaram;
9º – Maio de 2023 – Valencia (Mestalla): marco histórico: insultos levaram à paralisação do jogo. Três torcedores foram condenados a prisão – primeira sentença desse tipo na Espanha;
10º – Maio de 2023 – Valencia (campo): após reagir às arquibancadas, Vinícius foi expulso, gerando debate sobre a inversão de responsabilidades;
11º – Junho de 2023 – Redes sociais: campanhas racistas online após o episódio de Valencia. Investigações abertas, sem condenações imediatas;
12º – Março de 2024 – Retorno ao Mestalla: recebido com vaias em massa. Respondeu marcando dois gols e comemorando com o punho erguido;
13º – Março de 2024 – Atlético de Madrid x Inter (Champions League): cantos racistas contra Vinícius mesmo sem o jogador em campo. Real Madrid denunciou o caso;
14º – Abril de 2024 – Osasuna: gritos de “Vinícius morre” foram ouvidos no estádio. Investigação aberta;
15º – Junho de 2024 – Valencia (sentença): três torcedores condenados a oito meses de prisão e banimento de estádios por dois anos;
16º – Setembro de 2024 – Derby de Madri (internet): quatro pessoas presas por incitação ao ódio em redes sociais contra o jogador;
17º – Fevereiro de 2025 – Real Sociedad (Copa do Rei): árbitro acionou protocolo antirracismo; câmeras flagraram gestos racistas direcionados a Vinícius;
18º – Janeiro de 2026 – Copa do Rei (contra Albacete): torcedores do adversário proferiram insultos racistas. La Liga condenou publicamente;
19º – Fevereiro de 2026 – Benfica x Real Madrid: acusação direta contra Gianluca Prestianni. Jogo paralisado por nove minutos. Investigação da Uefa em andamento;
20º – Fevereiro de 2026 – Estádio da Luz (ambiente geral): hostilidade coletiva e xingamentos registrados em súmula e imagens, ampliando o caso para análise disciplinar.
“NÃO SOU VÍTIMA. SOU ALGOZ DO RACISMO”
Após a condenação dos torcedores em Valencia, Vinícius explicou por que segue reagindo publicamente. O jogador disse que muitos pediram silêncio e outros afirmaram que sua luta era inútil.
“Como sempre falei, eu não sou vítima de racismo. Sou algoz de racistas. Essa condenação não é por mim, é por todas as pessoas negras”, escreveu o jogador em seu perfil no X – veja a postagem na íntegra abaixo:
Dentro de campo, o brasileiro segue decidindo jogos pelo Real Madrid. Fora dele, tornou-se o principal rosto de uma mudança lenta – e ainda insuficiente – no combate ao racismo no futebol europeu.

