Wagner Tiso e Toninho Horta provam que sonhos e amizades não envelhecem; leia entrevista
A Boate Berimbau, no Conjunto Arcângelo Maletta, na esquina da rua da Bahia com a avenida Augusto de Lima, nos anos 1960, figurava entre os pontos da boemia belo-horizontina. Reduto de intelectuais, artistas e estudantes, o espaço recebia encontros que, ainda embrionários, prenunciavam o Clube da Esquina. Wagner Tiso, Milton Nascimento e Paulo Braga se reuniram ali para os shows do ‘Berimbau Trio’, grupo que combinava a bossa nova com aquilo que, mais tarde, seria conhecido como jazz mineiro.
Foi entre uma apresentação e outra que Paulinho se aproximou de Tiso com uma história que, à primeira vista, parecia mera conversa fiada, mas acabaria atravessando décadas. Contou haver, em sua casa, um menino que tocava violão maravilhosamente. O menino era Toninho Horta. “Fui conhecer Toninho por meio do irmão dele. A partir daí, fizemos uma amizade que dura até hoje”, disse o pianista e arranjador ao Estadão.
Mais de 60 anos depois, o público paulista poderá conferir de perto uma fração dessa amizade e cumplicidade. Os dois músicos se reencontram neste sábado, 17, no palco do Blue Note São Paulo. Segundo Toninho, a apresentação partiu de um convite do amigo e foi pensada para se encaixar em sua agenda, já que, desde o início de setembro, está em turnê pela Ásia em razão do disco Standards & Stories, previsto para ser lançado no Brasil em novembro.
“Wagner é uma pessoa por quem tenho o maior carinho e inspiração. Tenho grande prazer em tocar com ele, porque é como se eu estivesse em casa, né? É dividir o palco com um músico que conhece a minha obra e que também tem uma trajetória de sucesso no Brasil e no mundo”, disse o violonista.
‘Que bom, amigo’
Toninho conta que conheceu Tiso em 1965, quando tinha 16 anos, durante um festival de jazz e bossa nova. Na ocasião, Wagner se apresentou ao lado dos companheiros – Paulinho Braga, na bateria, e Bituca, no contrabaixo. “Vi esse show e lembro como se fosse hoje. O Tiso tinha um cabelo de músico erudito, que lembrava o do Francis Hime. Quando nos conhecemos, foi tudo muito tranquilo. Já havia entre nós uma afinidade pela música boa”, afirma.
Ao longo dos anos, a relação foi se estreitando entre rodas de música, partidas de sinuca e futebol na capital mineira, até desembocar em parcerias no Clube da Esquina, em 1972, e no Som Imaginário, em 1974. Criado por Tiso no início da década de 1970, inicialmente para acompanhar Milton nos shows, o Som Imaginário passou por diferentes configurações e incorporou uma pegada jazzística, mesclando o rock progressivo à sonoridade de Bituca. A formação clássica contou com Robertinho Silva, Tavito, Nivaldo Ornelas e Luiz Alves.
“Toninho e eu temos muitas passagens juntos. Viajamos várias vezes pelo mundo com o Som Imaginário, principalmente para a Europa. Então estamos sempre por perto, de uma forma ou de outra, tocando a música um do outro ou fazendo nosso próprio show”, pontua Tiso.
Ao relembrar a trajetória e a parceria, os dois destacam uma das colaborações mais marcantes: a construção da melodia de O Trem Azul, de Lô Borges e Ronaldo Bastos, para o álbum Clube da Esquina. Segundo Toninho, a criação da introdução e do solo, que marcaram sua participação no disco, não deu certo na primeira tentativa.
“Eu não tinha aquela manha de fazer solo, apenas brincava, às vezes, de improvisar. Ele [Tiso] percebeu que eu já estava fazendo coisas interessantes e me passou uma responsabilidade grande. Lembro que ele me perguntou: ‘Você é misto?’, e eu respondi que não me garantia tanto”, afirma o violonista, aos risos.
“Fiz o primeiro e não gostei tanto assim. Porém, na segunda, o Wagner falou que eu tinha que acertar, porque gravamos tudo em dois canais. Era aquela hora ou nunca. E aí deu certo. Deus mandou aquela inspiração e fiz aquele solo inesquecível”, completou.
O solo ganhou vida própria e passou a fazer parte do imaginário da canção. Em 1994, quando Tom Jobim regravou a música, desta vez com a letra em inglês, reproduziu o trecho criado por Toninho. “Naquele dia, disse a ele [Toninho] que seria aquilo mesmo e pronto. E, de fato, é engraçado porque todo mundo que canta ou toca Trem Azul faz esse solo”, relembra Tiso.
Nada foi como antes
Além de tocar diferentes instrumentos, como guitarra, violão e percussão, Toninho fez backing vocals na gravação do Clube da Esquina. Ao lado de Tiso, participou diretamente da construção dos arranjos e da organização das músicas, ajudando a definir introduções, solos, interlúdios e finais. Para o violonista, a liberdade criativa foi uma das responsáveis pelo sucesso do disco, eleito um dos dez melhores álbuns do mundo pela revista norte-americana Paste Magazine em 2024.
“O fato de estarmos entre amigos favoreceu bastante a dinâmica do estúdio, porque todo mundo tinha o seu talento e direcionamento. Confiávamos bastante uns nos outros. Inclusive os mais velhos, que, na época, eram Milton e Wagner, também acreditavam na gente. Fizemos todos os arranjos ali na hora, sem partitura. Tudo foi muito criativo”, afirma.
Quando gravou o disco, Tiso já havia percorrido uma longa estrada musical e trabalhado como arranjador para artistas como Johnny Alf, Maysa e Agostinho dos Santos. Ainda assim, ele conta que o Clube da Esquina foi uma experiência única. Pela primeira vez, havia escrito para uma orquestra em estúdio.
“A gente nasceu com o intuito de mostrar música para os próprios amigos, entende? Foi isso que deu certo. Eu compunha alguma coisa, por exemplo, e corria para mostrar para o Bituca. Éramos muito próximos. Hoje, o disco é esse monstro”, conta o pianista.
Toninho ainda destaca que um dos principais legados do coletivo está na qualidade musical e na diversidade de referências de cada integrante. Enquanto seu repertório era marcado pelo jazz, Milton trazia as canções e toadas mineiras, além dos cânticos e da música religiosa. Wagner tinha no rock progressivo uma de suas principais referências, enquanto Lô Borges e Beto Guedes se aproximavam do rock e da sonoridade pop dos Beatles. O baterista Robertinho Silva, por sua vez, carregava a experiência carioca e a riqueza da música brasileira, do samba e do choro às sonoridades do Norte do país.
Segundo o violonista, o grupo não tinha a pretensão de fazer uma música voltada ao mercado ou de explorar comercialmente o trabalho. A proposta era tocar com naturalidade, deixando que a própria canção conduzisse o processo. “As melodias são muito sofisticadas, porque usamos intervalos longos. Sempre falo que a nossa música acompanha o desenho das montanhas de Minas. As notas são altas e baixas, não têm intervalos curtos, igual às músicas litorâneas, que são flat, com melodias bem planas e sem muita distância entre uma nota e outra”, reflete Toninho.
Sonhos não envelhecem
De acordo com os artistas, não somente essas canções, que parecem acompanhar os contornos das ladeiras mineiras, mas também as histórias do Clube e da convivência em BH estarão no show. Além dos sucessos do coletivo e das colaborações de ambos, eles irão interpretar canções de suas carreiras solo, como Coração de Estudante e Trem Mineiro, de Tiso, e Manuel, O Audaz e Aquelas Coisas Todas, de Toninho. “Fazemos uma lista de músicas e escolhemos pela importância dela, pela época e história. Nós nos dividimos dessa maneira e nunca tem grilo nenhum”, disse Tiso.
Toninho ainda adiantou que, embora o lançamento do disco Standards & Stories esteja previsto para novembro no Brasil, algumas músicas inéditas do projeto estarão no repertório do show na capital paulista. Segundo o músico, as etapas de produção, gravação, mixagem e masterização do álbum fizeram com que, nos últimos meses, ele se dividisse entre BH e Nova York. O trabalho reúne seis canções em inglês e outras seis – como o próprio artista define – em “mineirês”.
“Quero seguir com minha música, porque ela faz parte do meu dia a dia, é meu ganha-pão e minha forma de expressar meus sentimentos pelas pessoas, pelos lugares, pela própria vida e por Deus. Tenho muitos planos para fazer turnês com orquestras, não só no Brasil, mas no mundo inteiro”, disse o artista, que se prepara para formar a própria banda.
O desejo de levar a música cada vez mais a caminhos diversos também é alimentado pelo reconhecimento que Toninho encontra fora do Brasil. Nas viagens pelos Estados Unidos, pelos países da Ásia e no próprio Brasil, ele conta que sente o carinho dos fãs e atribui a eles parte importante da finalização do novo disco. Para custear a produção, feita de forma independente, como outros álbuns de sua carreira, o músico recorreu a uma vaquinha. Quem contribuiu teve o nome – acompanhado da referência ao respectivo estado ou país – incluído na lista de agradecimentos do encarte do CD e do LP e receberá os produtos fonográficos de acordo com o valor da contribuição.
“Todo mundo me chama de maestro em Nova York, no Japão e na China. E tenho muitos fãs no Brasil, pessoas que me incentivam bastante. Não tenho grilo de ser um cara reconhecido internacionalmente e fazer uma vaquinha. A gente faz tudo na necessidade. Mas, com toda a discrição, a credibilidade e o carinho com os fãs. Então, foi algo que deu certo”, afirma o músico.
‘A música boa sobrevive’
Além do show com Toninho, Tiso se prepara para contar a própria história em um novo projeto. O músico está captando recursos para viabilizar o documentário Wagner Tiso – 80 anos, que pretende revisitar sua trajetória e mostrar, além da obra, o homem por trás dela. A produção também deve destacar a importância de Tiso para a música brasileira, marcada por parcerias com artistas como Gilberto Gil, Gal Costa, João Bosco, Marcos Valle, Caetano Veloso e Maria Bethânia. O filme ainda não tem previsão de lançamento.
“Fiz 80 anos e sonho em continuar trabalhando e fazendo música até o dia em que eu morrer. Considero que estou sempre começando”, conta Tiso.
Para os dois artistas, o desejo de seguir na música e continuar subindo aos palcos passa também pela permanência de suas obras. Com repertórios que atravessam gerações, Toninho e Tiso seguem encontrando novos públicos e reafirmando a atualidade de uma trajetória construída ao longo de décadas. “A nossa música vai durar muito tempo, porque tem qualidade e é inspiradora. Em todo lugar, sempre tem gente que é fã da música mineira. A música boa sobrevive. Veja os clássicos, estão aí até hoje”, disse Toninho.
Serviço: Show Toninho Horta e Wagner Tiso
Onde: Blue Note São Paulo | Avenida Paulista, 2073 – 2º Andar – Consolação – São Paulo/SP.
Quando: 17 de outubro
Horário: 20h e 22h30
Ingressos: R$ 140 | Eventim