White Martins inaugura primeira fábrica de hidrogênio verde em escala industrial do Brasil
Em meio à paralisação e ao atraso de projetos de descarbonização em todo o mundo, a White Martins inaugurou oficialmente nesta quarta-feira, 15, sua segunda fábrica de hidrogênio verde no País. Trata-se da primeira instalação do gênero no Brasil em escala industrial. A outra unidade da empresa, em Pernambuco, opera comercialmente, mas tem o porte de uma planta piloto, com uma capacidade equivalente a 25% da fábrica nova.
Instalada em Jacareí (a 85 km de São Paulo), a fábrica – cujo investimento necessário para construção não foi divulgado – tem capacidade para produzir 800 toneladas de hidrogênio por ano. Segundo o presidente da White Martins e da Linde na América Latina, Gilney Bastos, o volume de produção diário é suficiente para abastecer uma indústria de tamanho médio por até 35 dias – mesmo com uma equipe pequena: a previsão é de geração de 15 empregos.
O hidrogênio verde, fabricado a partir da água, é uma das grandes apostas do mundo para substituir combustíveis fósseis e reduzir as emissões de carbono do planeta. O mercado é promissor para o Brasil, que pode oferecer um dos hidrogênios mais competitivos do mundo. Isso porque, para produzir o hidrogênio limpo, é necessário um grande volume de energia elétrica, e o País tem fontes renováveis relativamente baratas – como eólica e solar.
O desenvolvimento do setor de hidrogênio verde, no entanto, está travado no mundo todo por causa de seus altos custos e das políticas do presidente americano, Donald Trump, contra uma economia menos poluente.
Bastos reconhece que o cenário geopolítico não é favorável para a instalação de fábricas destinadas à exportação de hidrogênio verde, dada a falta de procura pelo produto no mercado internacional e aos custos para enviar o combustível por navio. Plantas para abastecer o mercado doméstico, porém, devem ter demanda, de acordo com o executivo. “O desenvolvimento do setor no Brasil vai ser mais rápido do que esperamos, o de exportação, não.”
Cerca de 20% da produção da nova planta será destinada à fábrica de vidros da Cebrace, também em Jacareí. O restante será consumido por empresas metalúrgicas, químicas e de alimentos – a White Martins tem 400 compradores de hidrogênio.
Segundo o presidente da companhia, os contratos de hidrogênio verde estão sendo fechados pelos mesmos valores dos de hidrogênio cinza, que é produzido a partir de gás natural e é poluente. Ele diz que a empresa não está cobrando um prêmio pelo produto “verde” porque conseguiu ter um custo de produção que compete com o do hidrogênio cinza.
“Não estamos interessados em cobrar prêmio agora. Nosso interesse é desenvolver a indústria do hidrogênio verde do País”, destacou.
Entre os fatores que garantiram, segundo o presidente da White Martins, a competitividade desse hidrogênio verde está o fato de a companhia ter autoprodução de energia. Nesse modelo de contrato, empresas de energia renovável constroem usinas para atender terceiros, garantindo custos inferiores. No caso da fábrica de hidrogênio verde de Jacareí, a energia é solar e eólica e é produzida em parceria, respectivamente, com a Eneva e a Serena.
Também favorecem o custo da White Martins a escala da companhia, que é líder global em gases industriais, e os desenvolvimentos dos projetos de engenharia internamente, acrescenta Bastos.
A consultoria Thymos, especializada em energia, calcula, entretanto, que a média global do custo de produção de um quilo de hidrogênio verde esteja em US$ 7. Para que o produto possa competir com o hidrogênio cinza e com o gás natural – outra fonte energética importante para a indústria -, o preço teria de cair pelo menos 50%.
Apesar de ser a maior planta de hidrogênio verde do País, a fábrica de Jacareí é pequena quando comparada aos projetos do Nordeste, que estão em fase de decisão final de investimento. Essas plantas produzirão para exportação e demandarão até R$ 25 bilhões em investimentos.
“Uma fábrica de exportação é de 10 a 20 vezes maior do que essa”, diz Bastos.
A própria White Martins tem projetos para vender para o mercado externo. Tirá-los do papel, porém, ainda depende de haver compradores. “Uma vez que a guerra termine, não acredito que nenhum político consiga se eleger pautando o desenvolvimento em queima de carvão. A gente acha que, terminada a guerra, os megaprojetos de hidrogênio verde vão voltar ao radar.”

