O crepúsculo da “Paulínia Hollywood”: o que restou do ambicioso polo cinematográfico
Lançado há cerca de duas décadas, o Polo Cinematográfico de Paulínia (SP) foi projetado para ser o centro da produção audiovisual na América Latina, atraindo investimentos milionários e grandes produções nacionais. No entanto, após anos de glória, o projeto sucumbiu a crises políticas, cortes de verbas e denúncias de má gestão. Hoje, o que era para ser a Hollywood brasileira enfrenta o abandono, com estúdios subutilizados e infraestrutura deteriorada

No início dos anos 2000, a cidade de Paulínia, impulsionada pelos altos royalties vindos do petróleo, decidiu apostar em um futuro além do refino de combustíveis: o cinema. O plano era ousado e estruturado. A prefeitura investiu na construção de estúdios de última geração, escolas de formação técnica e, principalmente, em editais de fomento que atraíam cineastas de todo o Brasil.
O sucesso foi imediato. O Polo Cinematográfico de Paulínia serviu de cenário para filmes premiados, como “O Palhaço”, de Selton Mello, e “Chico Xavier”, de Daniel Filho. O Festival de Cinema de Paulínia tornou-se um dos mais prestigiados do calendário nacional, reunindo estrelas e crítica na cidade do interior paulista.
O declínio e a paralisia
A derrocada da “Hollywood brasileira” não aconteceu da noite para o dia, mas sim por uma sucessão de fatores que minaram a continuidade do projeto:
Descontinuidade Política: A troca constante de prefeitos e as mudanças nas prioridades de gestão interromperam os editais de fomento, que eram o coração do polo. Sem verba pública para as produções, os estúdios ficaram vazios.
Investigações Judiciais: Suspeitas de superfaturamento e irregularidades na aplicação dos recursos públicos levaram ao bloqueio de verbas e ao desgaste da imagem do projeto perante a indústria.
Falta de Iniciativa Privada: O polo foi desenhado com uma dependência excessiva do poder municipal. Quando a prefeitura cortou o suporte, não houve uma transição para um modelo de gestão privada sustentável.
O cenário atual
Atualmente, grande parte da infraestrutura bilionária sofre com o descaso. O Estúdio de Paulínia e o Theatro Municipal — um dos mais modernos do país — funcionam de forma intermitente ou recebem eventos que pouco lembram o glamour dos tempos áureos do cinema.
Apesar do abandono físico de alguns prédios, o legado de Paulínia ainda vive na memória da indústria e nos profissionais que foram formados pelas escolas técnicas locais. No entanto, o sonho de uma cidade industrial que se transformaria em uma capital da sétima arte permanece como um monumento ao que poderia ter sido a consolidação de um polo industrial criativo permanente no Brasil.

