O design da “cuia que fala”: como Chu Ming Silveira revolucionou as ruas com o orelhão

O orelhão, ícone do mobiliário urbano brasileiro, é fruto do talento da arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira. Criado em 1971 como uma solução econômica e acústica para a Companhia Telefônica Brasileira (CTB), o projeto utilizou a fibra de vidro para criar protetores leves e duráveis. Mais do que um telefone público, o design de Chu Ming tornou-se um símbolo cultural, exportado para diversos países e celebrado por nomes como Carlos Drummond de Andrade por sua capacidade de democratizar a comunicação nas cidades

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Reprodução: Wikipédia

A história de um dos maiores ícones visuais do Brasil começou do outro lado do mundo. Nascida em Xangai em 1941, Chu Ming Silveira imigrou com a família para o Brasil em 1951, fugindo da instabilidade política na China. Formada pela FAU Mackenzie, ela trabalhava na Companhia Telefônica Brasileira quando recebeu o desafio de criar um protetor para telefones públicos que fosse, ao mesmo tempo, barato, resistente e oferecesse boa acústica em meio ao barulho das metrópoles.

Em 1971, surgiram os modelos Chu I e Chu II, batizados oficialmente em sua homenagem, mas que o povo rapidamente apelidou de “orelhinha” (para locais fechados) e “orelhão” (para as ruas). A grande inovação foi o uso da fibra de vidro, um material leve e maleável que permitiu o formato de concha. Esse design não apenas protegia o usuário da chuva e do sol, mas utilizava a física do som para isolar o ruído externo e concentrar a voz de quem falava, eliminando a necessidade das caríssimas e abafadas cabines de vidro e metal da época.

O impacto foi imediato. O orelhão estreou oficialmente no Rio de Janeiro em 20 de janeiro de 1972 e em São Paulo no dia 25 do mesmo mês. A invenção era tão simpática e funcional que o poeta Carlos Drummond de Andrade chegou a dedicar uma crônica à “cuia que fala”, destacando como o objeto humanizou o cenário urbano. Chu Ming, que também foi uma arquiteta brilhante da Escola Paulista (com obras marcantes em Ilhabela e no Morumbi), faleceu em 1997, mas deixou um legado que resiste ao tempo: embora os aparelhos estejam em processo de extinção — restando cerca de 13 mil unidades no Brasil no fim de 2025 — o orelhão permanece no imaginário como um exemplo magistral de como o bom design pode unir estética e utilidade social.

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