Análise de modelos de inteligência artificial diverge sobre uso de tecnologia em relatório da Polícia Federal

Ferramentas como ChatGPT e Claude identificaram padrões repetitivos na peça utilizada pelo ministro Alexandre de Moraes, enquanto Gemini e Grok atribuíram as características ao rigor técnico do documento.

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Foto: Rosinei Coutinho / STF

Um relatório de inteligência elaborado pela Polícia Federal e utilizado pelo ministro Alexandre de Moraes no âmbito do Inquérito das Fake News tornou-se objeto de testes com sistemas de inteligência artificial. Os exames tinham como objetivo mapear a possível utilização de ferramentas automatizadas na geração ou revisão do texto policial.

As análises foram conduzidas a partir de uma metodologia elaborada pelo professor Marcelo Sabbatini, da Universidade Federal de Pernambuco. O mesmo conjunto de instruções e o documento em questão foram submetidos a quatro das principais plataformas de IA generativa do mercado: ChatGPT, Claude, Gemini e Grok.

Os resultados obtidos revelaram uma acentuada divergência entre os modelos. O ChatGPT e o Claude estimaram, respectivamente, probabilidades de 75% e 73% de que o relatório tenha contado com suporte de inteligência artificial em sua elaboração ou padronização textual.

Entre os principais indícios sinalizados pelas duas plataformas estão a repetição constante de estruturas sintáticas e a cadência regular na apresentação das informações. O documento replica, ao longo de várias seções, uma sequência fixa composta por fatos, avaliação, grau de confiança, hipóteses alternativas, riscos e recomendações.

Expressões recorrentes como “Avalia-se que”, “Registre-se” e termos que indicam parâmetros de certeza também foram destacados como sinais típicos de redação gerada ou ajustada por modelos de linguagem. O Claude ressaltou ainda o uso recorrente de oposições frasais do tipo “não é X, mas Y” e a inclusão recorrente de frases de efeito ao final dos trechos analíticos.

Apesar de identificarem os padrões, tanto o ChatGPT quanto o Claude observaram que o documento possui uma quantidade expressiva de dados específicos, tais como datas, legislações, nomes e números de processos. Essa densidade de informações afasta a tese de um texto totalmente genérico, indicando que, caso tenha ocorrido o uso de IA, ele se restringiu à organização ou revisão do material bruto fornecido por humanos.

Em contrapartida, as plataformas Gemini e Grok chegaram a conclusões opostas. O Gemini classificou como “muito baixa” a chance de intervenção por IA, fixando a probabilidade em apenas 5%, enquanto o Grok indicou um índice de 15%.

Para os dois últimos modelos, a padronização e a repetição de termos específicos decorrem unicamente do caráter formal e da metodologia técnica inerente aos relatórios institucionais da Polícia Federal. Termos como “Grau de confiança” e marcações alfanuméricas foram interpretados como parte do rigor e do padrão documental exigido pela corporação.

A variação de 70 pontos percentuais entre os menores e maiores índices evidencia os limites atuais das ferramentas na detecção de autoria sintética. As discrepâncias mostram que um mesmo padrão de escrita pode ser interpretado como indício de tecnologia ou como simples jargão burocrático e técnico.

O próprio idealizador do teste alertou para a necessidade de cautela ao interpretar os dados obtidos. A recomendação expressa é de que os resultados das ferramentas não sejam tomados como prova conclusiva ou veredito objetivo sobre quem redigiu o relatório oficial.

O caso ilustra a complexidade e os desafios que envolvem a identificação do uso de inteligência artificial em documentos do setor público. Enquanto as ferramentas evoluem, a distinção entre a linguagem altamente padronizada de relatórios burocráticos e o texto produzido por modelos automatizados continua a gerar debate no campo jurídico e tecnológico.

Com informações da Revista Oeste

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Redação Paiquerê FM News

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