Filho vai a júri popular em Londrina acusado de matar a mãe após histórico de agressões
Caso traz à tona um perfil de violência letal menos visibilizado: o feminicídio praticado no âmbito das relações materno-filiais.

O Tribunal do Júri da Comarca de Londrina realiza nesta terça-feira (15) o julgamento de Flávio Neimar Ferreira. Ele é acusado pelo Ministério Público do Paraná (MPPR) de cometer o homicídio de sua mãe, identificada como R. F., em um crime que teria ocorrido em fevereiro de 2017.
De acordo com a denúncia do Ministério Público, a vítima foi submetida a uma série de agressões físicas reiteradas na residência onde morava com o filho. Os registros apontam que os atos violentos aconteceram entre o final de dezembro de 2016 e o dia 2 de fevereiro de 2017, envolvendo socos, mordidas, empurrões e pancadas.
O óbito de R. teria ocorrido em 3 de fevereiro de 2017, na parte da manhã, em decorrência de um traumatismo cranioencefálico provocado pelas agressões. O corpo da vítima foi localizado dois dias depois, em 5 de fevereiro.
O réu enfrenta acusações por feminicídio consumado sob o contexto de violência doméstica e familiar, com a qualificadora de meio cruel, além de responder por lesão corporal. A pronúncia que enviou o caso ao júri foi emitida em 4 de junho de 2025, mantendo as qualificadoras para avaliação do Conselho de Sentença. Flávio nega o homicídio, apresentou uma versão alternativa para os fatos e responde ao processo em liberdade.
Conforme os elementos reunidos no processo, testemunhas e familiares relataram que o ambiente familiar era marcado por episódios recorrentes de violência. Parentes de R. afirmaram terem visto lesões e hematomas atribuídos ao filho e tentaram ajudá-la a se afastar, embora ele acabasse sendo acolhido novamente pela mãe.
A investigação também apontou que a vítima resistia a acionamentos policiais e impedia que os familiares registrassem ocorrências formais contra o acusado. Para o Néias – Observatório de Feminicídios de Londrina, tais dinâmicas impedem que a situação seja tratada apenas como um mero conflito doméstico isolado.
O observatório destaca a importância de ampliar a discussão sobre a violência letal contra a mulher para além das relações conjugais ou de ex-parceiros. A entidade aponta que episódios fatais também ocorrem nas relações entre mães e filhos, inseridos em contextos de dependência, dinâmicas de cuidado e fortes expectativas sociais ligadas à maternidade.
Segundo a análise da instituição, a cobrança social para que mães acolham e protejam incondicionalmente seus filhos pode funcionar como um fator que prolonga a permanência dessas mulheres em ciclos perigosos de violência familiar.
O trâmite judicial também chama atenção pelo longo intervalo temporal. Mais de nove anos e sete meses separam a data do crime, ocorrido em fevereiro de 2017, e a realização do julgamento no Tribunal do Júri de Londrina.
