Rinocerontes-negros retornam a parque do Zimbábue após décadas de caça ilegal

Mais de três décadas depois de a caça ilegal devastar as populações de rinocerontes-negros no Zimbábue, 17 animais foram reintroduzidos no Parque Nacional de Matusadona, no Vale do Zambeze. A operação representa um importante avanço na recuperação da espécie, considerada criticamente ameaçada de extinção. Os animais são descendentes de rinocerontes que foram retirados da região décadas atrás para escapar dos caçadores.

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Reprodução: Banco de imagens

O retorno dos rinocerontes-negros ao Parque Nacional de Matusadona marca um novo capítulo em uma história de conservação que começou ainda no século passado. A partir das décadas de 1970 e 1980, a crescente procura internacional por chifres de rinoceronte provocou uma onda de caça ilegal na África. Mais de 90% da população da espécie foi perdida no continente e no Zimbábue.

Na década de 1980, o Vale do Zambeze ainda abrigava mais de 500 rinocerontes-negros, formando uma das maiores populações contínuas da espécie. Com o avanço dos caçadores, autoridades do Zimbábue iniciaram uma grande operação para localizar os animais sobreviventes e transferi-los para propriedades privadas e zonas públicas de proteção intensiva.

O resgate era complexo. Equipes precisavam localizar os rinocerontes em regiões remotas, sedá-los e, em alguns casos, abrir caminhos manualmente pela vegetação para que veículos pudessem chegar até os animais. O objetivo era preservar indivíduos capazes de garantir a sobrevivência da espécie e, futuramente, permitir seu retorno às áreas de origem.

Matusadona conseguiu manter rinocerontes durante alguns anos, mas também acabou atingido pela caça ilegal. No fim de 1993, restavam apenas 16 animais no parque. Após medidas de proteção, a população chegou novamente a aproximadamente 45 indivíduos nos anos 2000, mas uma nova onda de caça, agravada pela crise econômica do Zimbábue e pela falta de recursos para fiscalização, voltou a provocar perdas.

Em 16 de julho de 2016, uma câmera instalada no parque registrou aquele que seria o último avistamento conhecido de um rinoceronte-negro em Matusadona. Depois disso, a espécie desapareceu completamente da área.

A recuperação começou a ganhar força com uma parceria estabelecida em 2019 entre a autoridade de parques e vida selvagem do Zimbábue e a organização African Parks. Foram realizados investimentos em fiscalização, infraestrutura, equipamentos e treinamento de guardas, além de ações voltadas às comunidades que vivem próximas ao parque.

O número de agentes também aumentou. Em um período crítico, apenas cerca de 20 guardas realizavam patrulhas em Matusadona, enfrentando falta de combustível e veículos. Atualmente, novos profissionais estão sendo treinados, com a expectativa de chegar a aproximadamente 100 agentes responsáveis pela proteção da área.

Outro ponto considerado fundamental é a participação das comunidades locais. Segundo os responsáveis pelo projeto, 99% dos funcionários do parque são zimbabuanos e 84% são provenientes das quatro comunidades tradicionais da região de Nyaminyami. O trabalho inclui geração de empregos, aquisição de produtos locais e programas sociais. Durante uma seca recente, por exemplo, mais de 5 mil estudantes receberam alimentação por meio de iniciativas desenvolvidas na região.

17 rinocerontes voltam para casa

Em maio, 17 rinocerontes-negros foram finalmente levados de volta a Matusadona. Antes de serem soltos, permaneceram em recintos protegidos para passar por um período de adaptação. Posteriormente, começaram a ocupar novamente as áreas naturais do parque.

A importância científica da operação está também na origem desses animais. Eles pertencem à linhagem genética dos próprios rinocerontes do Vale do Zambeze que haviam sido retirados décadas atrás para protegê-los da caça. Dessa forma, o projeto não está simplesmente introduzindo animais de outra região, mas devolvendo descendentes da população original ao seu habitat.

O próximo passo já está sendo preparado. Uma segunda fase prevê a transferência de mais 20 rinocerontes para Matusadona, escolhidos de maneira a ampliar a diversidade genética da população.

A meta de longo prazo é estabelecer no parque uma população numerosa, geneticamente saudável e capaz de se reproduzir sem depender continuamente de novas introduções. No futuro, Matusadona poderá inclusive fornecer animais para recuperar outras regiões onde os rinocerontes desapareceram.

Atualmente, estima-se que existam cerca de 6,8 mil rinocerontes-negros distribuídos por aproximadamente 12 países africanos. Apesar da recuperação observada nas últimas décadas, a espécie continua classificada como criticamente ameaçada, e a caça ilegal permanece entre seus principais riscos.

Para os responsáveis pelo projeto, o retorno dos animais representa apenas uma parte do desafio. Guardas utilizam patrulhamento, monitoramento e até drones para acompanhar os rinocerontes. A prioridade agora é impedir que a história se repita e garantir que a população consiga permanecer e crescer no Vale do Zambeze.

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